Boston, 20 de Agosto de 2016.
Uma pequena carta para
uma grande diva
Três da
madrugada. Desperto-me abruptamente, algo inusitado para quem dorme pesado.
Sinto no peito um vazio que preciso preenche-lo. Não deveria estar me sentindo
assim, após um concerto incrível da diva do soul em Boston.
Aretha
poucas horas antes cantara seus clássicos Respect, Chain of Fools, I say a
little prayer entre outros. Eu voltei satisfeito para casa e tombei o corpo
cansado no colchão.
Num ato
peristáltico sem qualquer razão para existir, corro para a minha caixa de
recordações, que há duas mudanças não a
abro. Começo a sacar fotos e postais antigos. Quase todos são da Vó Xila: Tanzânia,
Austrália, Alaska, Alentejo, entre dúzias de outros mais.
Leio-os
todos atentamente, tentando decifrá-los através das manchas do tempo e da
caligrafia arabesca da minha avó. Somos o que fazemos, e não o que dizemos.,
penso comigo mesmo. Nestes postais deduzo e confirmo as principais
características da minha avó.
Sempre
assina Vó Xila e Vô Renato. Nesta ordem. Sempre o seu querido marido (e “mordomo”)
lá junto acompanhando-lhe nas andanças e aventuras pelo mundo. Sempre destaca a
beleza existente nos pequenos detalhes, apontando desde a janelinha do quarto
em que estivera hospedada num grande hotel, a como a bolsa marsupial dos
cangurus é tão gira. A palavra saudade está presente em todos os postais.
Pergunta sempre se venho no verão para Portugal para irmos juntos à praia em Setúbal.
Ela se foi
há pouco mais de dois meses. Não alcancei vê-la neste verão. Tenho que agora desassociar
Portugal dela, pois as duas figuras se misturam na minha cabeça. Difícil pensar
em chegar no aeroporto de Lisboa sem tê-la lá a acenar muito pavoa a nossa
espera.
Cresci
escutando suas historias, as viagens, os causos, e abriu-me sempre a
curiosidade de desafiar os limites geográficos da nossa existência. Talvez por
isto que viva esta vida itinerante.
Imagino que
agora, está lá com o Vô num cruzeiro, seu habitat natural, ambos muito
elegantes, ele a paparicá-la e ela a conversar e a divertir-se. Penso que neste
navio jantam todos os dias com o capitão, e sentam-se à mesa com os maiores
estadistas e lideres da humanidade, Napoleão obviamente é presença marcada, e
tem na minha avó sua grande conselheira para qualquer assunto.
Do Indra
Regent Hotel em Bangkok, em 02 de Fevereiro de 1989 me escreveu numa carta o
seguinte trecho:
“Então como vai?
Quando tiver um pouquinho de tempo escreva-me uma pequena carta, pois ficaria
bem contente. Tenho loucas saudades! Quando você vem cá para eu as matar?”
Pois minha
diva, também tenho loucas saudades. Não imaginas o quanto. O mundo ficou mais
vulgar e gris sem a tua presença.
Conforto-me
desta tresloucada saudade com o maior presente que me deste, o qual deixaste
gravado noutro cartão que recebi quando vivia no intercambio nos EUA e
sentia-me muito sozinho. Transcrevo-o logo abaixo.
Obrigado
minha querida avó por ter-me dado a honra de conviver contigo. Mesmo com esta
distancia que as circunstancias nos impõem, estás muito presente.
Thiago
“Amar é estar presente
na distancia
E sem palavras anular
silêncios
Para o meu querido
Thiago não se esquecer da sua Vovó Xila”
(Natal/1995)
Nós dois no autocarro em Lisboa, circa 2002.
Harmonize o texto com a música Bridge Over Troubled Water da Aretha Franklin. Clique aqui.