sexta-feira, janeiro 27, 2017

O Astronauta e a Baleia Amiga

O Astronauta e a Baleia Amiga
Boston, 27 de Janeiro de 2017

Ja tive muitos apelidos na vida. Grilo falante, testa de bater bife, frango, frangolino e todas variacoes possiveis e imaginarias. Fui Thiagao, fui Thiaguinho. Fui Thi. Ate em ingles fui apelidado. E muitos outros que ja nem me lembro.

Mas agora com quase quarenta anos, ganhei o melhor apelido do mundo. O meu filho Gabo, atualmente com dois anos e meio, comecou a intitular-se astronauta, e muito logicamente, tem em mim, a baleia amiga, o seu companheiro de aventuras. Afinal o ceu e o mar sao dimensoes iguais da mesma aventura de viver.

O astronauta e a baleia amiga transformam cadeiras em foguetes, e voamos pelo espaco, apertando os controles da nave, e acenando `as estrelas, satelites e planetas. Tambem, brincamos de pega-pega, claro que o astronauta sempre ganha. Na piscina, o astronautinha sobe na baleia e nos deliciamos em grandes mergulhos e risadas. E se a baleia tentar se rebelar, mordendo ou apertando o astronautra (afinal a natureza eh esta!), o nosso menino-espacial me recorda que sou uma baleia amiga, e nao posso lhe fazer malvadezas. Ja pequeno usa muito bem os adjetivos apropriados!

Sei que austronauta tambem sera uma alcunha mais na lista de muitos apelidos na historia do meu filho, e simplesmente torco que um dia possa ter a honra, assim como tenho, de ser ele tambem uma baleia amiga.


 Harmonize o texto com a música All of me do Django ReinhardtClique aqui.


Desculpem-me pelos erros ortograficos. Texto escrito num teclado configurado para ingles.


O Astronauta e a Baleia Amiga por Fernando Galhano, Jan/2017

sexta-feira, agosto 19, 2016

Uma pequena carta para uma grande diva

Boston, 20 de Agosto de 2016.


Uma pequena carta para uma grande diva

Três da madrugada. Desperto-me abruptamente, algo inusitado para quem dorme pesado. Sinto no peito um vazio que preciso preenche-lo. Não deveria estar me sentindo assim, após um concerto incrível da diva do soul em Boston.

Aretha poucas horas antes cantara seus clássicos Respect, Chain of Fools, I say a little prayer entre outros. Eu voltei satisfeito para casa e tombei o corpo cansado no colchão.

Num ato peristáltico sem qualquer razão para existir, corro para a minha caixa de recordações,  que há duas mudanças não a abro. Começo a sacar fotos e postais antigos. Quase todos são da Vó Xila: Tanzânia, Austrália, Alaska, Alentejo, entre dúzias de outros mais.

Leio-os todos atentamente, tentando decifrá-los através das manchas do tempo e da caligrafia arabesca da minha avó. Somos o que fazemos, e não o que dizemos., penso comigo mesmo. Nestes postais deduzo e confirmo as principais características da minha avó.

Sempre assina Vó Xila e Vô Renato. Nesta ordem. Sempre o seu querido marido (e “mordomo”) lá junto acompanhando-lhe nas andanças e aventuras pelo mundo. Sempre destaca a beleza existente nos pequenos detalhes, apontando desde a janelinha do quarto em que estivera hospedada num grande hotel, a como a bolsa marsupial dos cangurus é tão gira. A palavra saudade está presente em todos os postais. Pergunta sempre se venho no verão para Portugal para irmos juntos à praia em Setúbal.

Ela se foi há pouco mais de dois meses. Não alcancei vê-la neste verão. Tenho que agora desassociar Portugal dela, pois as duas figuras se misturam na minha cabeça. Difícil pensar em chegar no aeroporto de Lisboa sem tê-la lá a acenar muito pavoa a nossa espera.

Cresci escutando suas historias, as viagens, os causos, e abriu-me sempre a curiosidade de desafiar os limites geográficos da nossa existência. Talvez por isto que viva esta vida itinerante.  

Imagino que agora, está lá com o Vô num cruzeiro, seu habitat natural, ambos muito elegantes, ele a paparicá-la e ela a conversar e a divertir-se. Penso que neste navio jantam todos os dias com o capitão, e sentam-se à mesa com os maiores estadistas e lideres da humanidade, Napoleão obviamente é presença marcada, e tem na minha avó sua grande conselheira para qualquer assunto.

Do Indra Regent Hotel em Bangkok, em 02 de Fevereiro de 1989 me escreveu numa carta o seguinte trecho:

“Então como vai? Quando tiver um pouquinho de tempo escreva-me uma pequena carta, pois ficaria bem contente. Tenho loucas saudades! Quando você vem cá para eu as matar?”

Pois minha diva, também tenho loucas saudades. Não imaginas o quanto. O mundo ficou mais vulgar e gris sem a tua presença.

Conforto-me desta tresloucada saudade com o maior presente que me deste, o qual deixaste gravado noutro cartão que recebi quando vivia no intercambio nos EUA e sentia-me muito sozinho. Transcrevo-o logo abaixo.

Obrigado minha querida avó por ter-me dado a honra de conviver contigo. Mesmo com esta distancia que as circunstancias nos impõem, estás muito presente.

Thiago

“Amar é estar presente na distancia
E sem palavras anular silêncios
Para o meu querido Thiago não se esquecer da sua Vovó Xila”

(Natal/1995)


Nós dois no autocarro em Lisboa, circa 2002.


Harmonize o texto com a música Bridge Over Troubled Water da Aretha Franklin. Clique aqui.

segunda-feira, agosto 10, 2015

A colmeia defenestrada

Boston, 10 de agosto de 2015

A colmeia defenestrada

Todos os dias entrava pela janela da esquerda. Sentia cheiros e sabores doces. Onde estava o polén? Ziguezagueava no espaço aberto daquela cozinha imensa, comprida e limpa. Queria levar para a sua rainha açúcar para construir o lar e alimentar os sucessores. Passeava pela pia, pelo fogão, frutas, e sempre encontrava algo para bicar e guardar nas esporas. Saía pela janela direita quando já o dia era alto e os gritos e gemidos do menino Gabriel eram tais, que nao lhe permitiam concentrar-se na função de abelha exploradora de doces.

Gabriel, 11 meses de idade, aprendera a engatinhar nas últimas semanas, conseguira colocar seus movimentos em sincronia a ponto de que cada joelho progredia frente ao solo tao suavemente que de uma maneira natural empurravam-lhe adiante e assim conseguia já percorrer toda a metragem do apartamento na Rua Zurbano em Madrid, sentia especial satisfação quando conseguia dar a volta completa pelo apartamento, terminando a sua trajetória na cozinha de ladrilhos brancos e negros imensos e geometricamente alinhados. Quando lá passou sentiu um zumbido de uma  abelha a voar muito alto sobre sua cabeça em direção à janela.

Dia 22 de Julho de 2015. Pai e mae de Gabriel a correr de lá para cá para poder fechar o apartamento, separar as caixas e pertences que vao viajar milhas e milhas rumo a Boston, novo rumo da família. Verao em Madrid, 35 graus de muito calor, clima seco. Cansaço. De repente, do nada, começou um chuva – quase tropical – no meio da península ibérica. Inusitado, raro, esquisito. Trouxe conforto térmico e tivemos que esperar a chuva passar para poder permitir acabar a mudança e uma fase de cinco anos bem vividos e felizes na capital espanhola.

Atordoada, confusa, nesta hora durante a chuva, a abelha já nao sabia se ficava na cozinha a espera de um clima mais ameno, ou aventurava-se através da janela a um mundo incerto e imprevisível.

Tanto a abelha, como nós três aceitamos o desafio de defenestrar-nos através do vazio com a esperança de um futuro melhor.

A chuva continuou. Madrid ainda chorou muito a despedida de seu prematuro madrileño, Gabo.


Conto em homenagem e inspirado por minha Tia Inajá que tanto observou a abelha, e sobretudo o ¨seu Gabolino¨ nos últimos dias da nossa estadia na Espanha.



quinta-feira, janeiro 09, 2014

Passada quatro vezes no frio da Mantiqueira

Madrid, 09 de Janeiro de 2014

Passada quatro vezes no frio da Mantiqueira

Conheci Michele no hemisfério norte.  Era 2005 e tínhamos 27 anos aproximadamente. Nao sabia no momento, mas acabava de conhecer uma amiga incrível e seguramente para toda a vida.

Fomos estudar nosso MBA em Nova Iorque. Dois duros no meio de patricinhos e bem-afortunados. Na raça e batalhando muito, seguramos a onda por lá, vivendo em condições precárias e situações de extremo. Nao consigo sequer detalhar como chegamos e sobrevivemos por lá, mas tenho provas cabais que estivemos naquilo. Nao foi sonho ou delírio.

Michele, típica mineirinha boa-praça, crescida em São Paulo, estudiosa, aplicada e valente, conseguiu abrir os seus horizontes e alcançar alturas incríveis na sua carreira. Família vinda de Passa-Quatro, estudou na FGV, trabalhou na Disney, vestida sei lá de qual personagem (Margarida, Pluto?), depois no SENAC em Campos do Jordao e a partir de aí alcançou o mundo.

Lembro-me perfeitamente, enquanto todos os demais estudantes estavam desfrutando da sonorização dos concertos no Carnegie Hall ou dos restaurantes da moda em Tribeca, estávamos os dois buscando apartamento para um orçamento clandestino em plena Big Apple. Por fim, ambos encontrámos algo tranqueira mas habitável. Compartilhávamos classes nas aulas de media & entertainment e nos divertíamos muito juntos,  com pouco mas sempre felizes.

Já nos primeiros meses, começou a fazer muito frio. Era outono e percebia que Michele tinha um claro conflito com o termômetro. Ventos frios, úmidos entravam nos ossos e nos exigiam camadas e camadas de roupas. Ficou doente muitas vezes e saudosa dos ares tropicais. Ao fim do semestre já era padrão os seus planos de regresso.

Nesta altura, Michele ficou amiga de uma ex-noiva minha conquanto vivíamos em NYC. Eram amigas. Ao voltar ao Brasil, ficamos alguns meses sem conversar, certa vez escreveu um email para os dois perguntando como estávamos. Já nao estávamos. Havíamos rompido relação. Escrevi dizendo-lhe isto. Acho que ficou muito mal, com vergonha e como mineirinha calou-se por tempo indeterminado.

Passado muitos anos, já aqui da Espanha, pensei na minha amiga. Quanto tempo se passou? Onde estaria? Que faria? Escrevi-lhe um email. Era Setembro de 2010. Vivíamos em Madri há dois meses. Nao sei o que passou na minha cabeça mas retomei contato.

Dois dias depois, Michele me respondeu. Desculpando-se do fato ocorrido anos atrás, disse-me que também acabava de vir a Madrid e morava a 10 quadras da minha casa!!!!! Incrível este mundo.

Nos seguintes dois anos, vivemos como unha e carne, sempre que possível pois o doutorado da Michele era bravo. Quando ela conheceu a Tati, então viraram almas gêmeas. Curtimos muito sempre e quando fazia calor.

Como um bicho selvagem na toca se colocava quando o termômetro voltava a apresentar-se rebelde de azul. Um grauzinho a menos e nada da Michele. Constipava-se, nariz vermelho, tosse, febre e internação na sua casa. Passou dois invernos aqui muito mal até perceber que o seu lugar é o Brasil.

Tanto a Tati como eu choramos muito quando se foi. Parece que nos amputavam um órgão vital. Enfim, voltou rumo ao calor. Concluíamos enfim que era o melhor para a nossa amiga.

Estas férias eu e a Tati fomos ao Brasil. Combinamos de encontrar a Michele. Saíamos da Avenida Angélica, pegamos um ónibus que nos deixou na esquina da Paulista com a Brigadeiro. Descemos um pouco e tocamos a porta.

Abriu a sua mae, Carminha. Mineirinha com denominação de origem. Sorridente, conversadeira e que logo nos ofereceu um café (tipo mineiro, começa pela cafeína e passa por pao-de-queijo, fubá, queijo, linguiça e muitos otros quitutes). Incrível. Sem falar nuns doces pé-de-moleque também únicos.

O pai, também incrível. Muito simpático, uma excelente história de vida e um sorriso que abarcava a via láctea. A Michele feliz, de havaianas nos pés, camisa manga regata e suor nas têmporas, seu habitat.

Como qualquer amigo íntimo, pergunto sobre como era a Michele na infância. Sua mae nos conta que ela nasceu em Passa-Quatro, Minas Gerais, terra de sua família. Coraçao da Serra da Mantiqueira, mata atlântica na sua exuberância máxima. Nasceu no inverno, no alto da serra, e neste dia, lá nos fins dos anos setenta, foi o dia mais frio de todos os tempos registrados em Passa-Quatro. Dizem os antigos, que até nevou. Exagero de mineirinhos.  Sendo neve, geada ou apenas frio intenso, algo marcou naquela bebezinha que a sua trajetória nesta vida foi buscar um lugar quente. Espero voltar aos trópicos para poder seguir disfrutando da companhia desta amiga maravilhosa. 

domingo, novembro 17, 2013

Um texto que gostaria de tê-lo escrito eu mesmo...

Madrid, 17 de novembro de 2013.

Um texto que gostaria de tê-lo escrito eu mesmo…

Pois é, temos que reconhecer, quando alguém te supera, tire o chapéu e agradeça. Este texto está fantástico e o personagem principal sou fa de carteirinha há muitos anos. Espero um dia chegar a altura de homenageá-lo, como fez este repórter. Tenho uma idéia no forno e semi-escrita há muito tempo sobre o Zezito, mas ainda faltam alguns detalhes.

Espero que gostem, para os que - por acaso - nao saibam, o Zezito é o avô materno da Tati.

Bom proveito!

Thiago


quarta-feira, setembro 18, 2013

Chatarrrrreeeerrrroooo!!!

Chatarrrrreeeerrrroooo
Madrid, 18 de Setembro de 2013.


Hoje sai tarde de casa, ontem o avião atrasou duas horas voltando de Londres, fui dormir as 02:00am. Hoje tomei o café-da-manhã com a Tati com tranquilidade na padaria embaixo de casa.

Quando saímos passou um senhor de meia idade , baixinho e entroncado, gritando o que há 3 anos escuto e nao percebo...

"Chatarrrrreeeerrrroooo"!!!

Foi a oportunidade! Me aproximei e perguntei o que ele tanto gritava.. Com uma voz de barítono de opera me respondeu "compro ferro"!!!

Pois assim é a vida, logo numa manha de fim de verão em Madrid, o nosso barítono ferreiro me lembra que na vida nem todos tem a sorte de ser o barbeiro de Sevilha e que no fundo vamos todos levando uma vida de ferreiro de Chamberi.



Tradução: chatarrero em espanhol significa literalmente sucateiro. O nosso sucateiro que sempre passa nas ruas de Sao Paulo, também a gritar. Interculturalidades. Veja mais en http://es.wikipedia.org/wiki/Chatarra

segunda-feira, setembro 02, 2013

Histórico profissional

Histórico profissional
Madrid, 02 de Setembro de 2013.

Uma demonstraçao da capacidade, visao e estratégia que já nos "remotos" anos 90 as empresas brasileiras apostavam por contratar grandes talentos!

Deve ser o meu primeiro holerith, acho que nao cheguei a receber este salario, mas o documento histórico serve para lembrar os "sempre bons tempos".

O problema, lembro-me bem, foi quando na primeira sexta-feira nao apareci para ir jogar futebol! Tinha que demonstrar a minha classe em outras bandas! A experiencia nao durou muito, mas como dizia o poeta, "Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure. "

O mais incrível, ainda por ser encontrado para os anais da história econômica brasileira foi o meu primeiro curriculum vitae. Ajudou-me o meu pai. Foi para uma corretora de valores da Bolsa de Sao Paulo. Lembro-me de algumas frases incríveis:

"Vim ao mundo para brilhar", 

"Sejam rápidos em me contratar pois outros o farao!" 

e frases muito criativas e muito avançadas para a época. Nem responderam àquela carta magnífica e imortal.

Hoje como responsável de RH de uma multinacional, acho todos os CVs iguais e insossos. Assim como na arte, alguns conseguem nas empresas se diferenciar e sair do comum. Em tudo que fez o meu pai, isto sem dúvida conseguiu e continua se superando.