Madrid,
09 de Janeiro de 2014
Passada
quatro vezes no frio da Mantiqueira
Conheci Michele no hemisfério norte. Era 2005 e tínhamos 27 anos aproximadamente.
Nao sabia no momento, mas acabava de conhecer uma amiga incrível e seguramente
para toda a vida.
Fomos estudar nosso MBA em Nova Iorque. Dois duros no meio de
patricinhos e bem-afortunados. Na raça e batalhando muito, seguramos a onda por
lá, vivendo em condições precárias e situações de extremo. Nao consigo sequer
detalhar como chegamos e sobrevivemos por lá, mas tenho provas cabais que
estivemos naquilo. Nao foi sonho ou delírio.
Michele, típica mineirinha boa-praça, crescida em São Paulo,
estudiosa, aplicada e valente, conseguiu abrir os seus horizontes e alcançar
alturas incríveis na sua carreira. Família vinda de Passa-Quatro, estudou na
FGV, trabalhou na Disney, vestida sei lá de qual personagem (Margarida,
Pluto?), depois no SENAC em Campos do Jordao e a partir de aí alcançou o mundo.
Lembro-me perfeitamente, enquanto todos os demais estudantes estavam
desfrutando da sonorização dos concertos no Carnegie Hall ou dos restaurantes
da moda em Tribeca, estávamos os dois buscando apartamento para um orçamento
clandestino em plena Big Apple. Por fim, ambos encontrámos algo tranqueira mas
habitável. Compartilhávamos classes nas aulas de media & entertainment e
nos divertíamos muito juntos, com pouco
mas sempre felizes.
Já nos primeiros meses, começou a fazer muito frio. Era outono e
percebia que Michele tinha um claro conflito com o termômetro. Ventos frios,
úmidos entravam nos ossos e nos exigiam camadas e camadas de roupas. Ficou
doente muitas vezes e saudosa dos ares tropicais. Ao fim do semestre já era
padrão os seus planos de regresso.
Nesta altura, Michele ficou amiga de uma ex-noiva minha conquanto
vivíamos em NYC. Eram amigas. Ao voltar ao Brasil, ficamos alguns meses sem
conversar, certa vez escreveu um email para os dois perguntando como estávamos.
Já nao estávamos. Havíamos rompido relação. Escrevi dizendo-lhe isto. Acho que
ficou muito mal, com vergonha e como mineirinha calou-se por tempo
indeterminado.
Passado muitos anos, já aqui da Espanha, pensei na minha amiga.
Quanto tempo se passou? Onde estaria? Que faria? Escrevi-lhe um email. Era
Setembro de 2010. Vivíamos em Madri há dois meses. Nao sei o que passou na
minha cabeça mas retomei contato.
Dois dias depois, Michele me respondeu. Desculpando-se do fato
ocorrido anos atrás, disse-me que também acabava de vir a Madrid e morava a 10
quadras da minha casa!!!!! Incrível este mundo.
Nos seguintes dois anos, vivemos como unha e carne, sempre que
possível pois o doutorado da Michele era bravo. Quando ela conheceu a Tati,
então viraram almas gêmeas. Curtimos muito sempre e quando fazia calor.
Como um bicho selvagem na toca se colocava quando o termômetro
voltava a apresentar-se rebelde de azul. Um grauzinho a menos e nada da
Michele. Constipava-se, nariz vermelho, tosse, febre e internação na sua casa.
Passou dois invernos aqui muito mal até perceber que o seu lugar é o Brasil.
Tanto a Tati como eu choramos muito quando se foi. Parece que nos
amputavam um órgão vital. Enfim, voltou rumo ao calor. Concluíamos enfim que
era o melhor para a nossa amiga.
Estas férias eu e a Tati fomos ao Brasil. Combinamos de encontrar a
Michele. Saíamos da Avenida Angélica, pegamos um ónibus que nos deixou na
esquina da Paulista com a Brigadeiro. Descemos um pouco e tocamos a porta.
Abriu a sua mae, Carminha. Mineirinha com denominação de origem.
Sorridente, conversadeira e que logo nos ofereceu um café (tipo mineiro, começa
pela cafeína e passa por pao-de-queijo, fubá, queijo, linguiça e muitos otros
quitutes). Incrível. Sem falar nuns doces pé-de-moleque também únicos.
O pai, também incrível. Muito simpático, uma excelente história de
vida e um sorriso que abarcava a via láctea. A Michele feliz, de havaianas nos
pés, camisa manga regata e suor nas têmporas, seu habitat.
Como qualquer amigo íntimo, pergunto sobre como era a Michele na
infância. Sua mae nos conta que ela nasceu em Passa-Quatro, Minas Gerais, terra
de sua família. Coraçao da Serra da Mantiqueira, mata atlântica na sua
exuberância máxima. Nasceu no inverno, no alto da serra, e neste dia, lá nos
fins dos anos setenta, foi o dia mais frio de todos os tempos registrados em
Passa-Quatro. Dizem os antigos, que até nevou. Exagero de mineirinhos. Sendo neve, geada ou apenas frio intenso, algo
marcou naquela bebezinha que a sua trajetória nesta vida foi buscar um lugar
quente. Espero voltar aos trópicos para poder seguir disfrutando da companhia
desta amiga maravilhosa.