segunda-feira, agosto 10, 2015

A colmeia defenestrada

Boston, 10 de agosto de 2015

A colmeia defenestrada

Todos os dias entrava pela janela da esquerda. Sentia cheiros e sabores doces. Onde estava o polén? Ziguezagueava no espaço aberto daquela cozinha imensa, comprida e limpa. Queria levar para a sua rainha açúcar para construir o lar e alimentar os sucessores. Passeava pela pia, pelo fogão, frutas, e sempre encontrava algo para bicar e guardar nas esporas. Saía pela janela direita quando já o dia era alto e os gritos e gemidos do menino Gabriel eram tais, que nao lhe permitiam concentrar-se na função de abelha exploradora de doces.

Gabriel, 11 meses de idade, aprendera a engatinhar nas últimas semanas, conseguira colocar seus movimentos em sincronia a ponto de que cada joelho progredia frente ao solo tao suavemente que de uma maneira natural empurravam-lhe adiante e assim conseguia já percorrer toda a metragem do apartamento na Rua Zurbano em Madrid, sentia especial satisfação quando conseguia dar a volta completa pelo apartamento, terminando a sua trajetória na cozinha de ladrilhos brancos e negros imensos e geometricamente alinhados. Quando lá passou sentiu um zumbido de uma  abelha a voar muito alto sobre sua cabeça em direção à janela.

Dia 22 de Julho de 2015. Pai e mae de Gabriel a correr de lá para cá para poder fechar o apartamento, separar as caixas e pertences que vao viajar milhas e milhas rumo a Boston, novo rumo da família. Verao em Madrid, 35 graus de muito calor, clima seco. Cansaço. De repente, do nada, começou um chuva – quase tropical – no meio da península ibérica. Inusitado, raro, esquisito. Trouxe conforto térmico e tivemos que esperar a chuva passar para poder permitir acabar a mudança e uma fase de cinco anos bem vividos e felizes na capital espanhola.

Atordoada, confusa, nesta hora durante a chuva, a abelha já nao sabia se ficava na cozinha a espera de um clima mais ameno, ou aventurava-se através da janela a um mundo incerto e imprevisível.

Tanto a abelha, como nós três aceitamos o desafio de defenestrar-nos através do vazio com a esperança de um futuro melhor.

A chuva continuou. Madrid ainda chorou muito a despedida de seu prematuro madrileño, Gabo.


Conto em homenagem e inspirado por minha Tia Inajá que tanto observou a abelha, e sobretudo o ¨seu Gabolino¨ nos últimos dias da nossa estadia na Espanha.



2 comentários:

  1. Muito bonito, fiquei emocionada. O meu bébé viajou hoje e vóvó quando chegar a casa vai sentir ainda mias a falta dele, hoje o dia está difícil sem o meu bébé querido.

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  2. Ti, que texto bonito, gostoso de ler. Desejar sorte no novo porto é bom mas desnecessário. Os pais do Gabo a fazem a cada passo, a cada salto. E que após Boston venham outros saltos, outros riscos pois afinal, como falam na sua próxima colmeia hospedeira, No pain, No gain. Beijos aos três.

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