terça-feira, junho 19, 2012

A Tourada


Madrid, 19 de Junho de 2012.

Todas as chances são para o toureiro. Mas nem sempre.

Num domingo de rara chuva em Madrid, meu amigo Malibu e eu decidimos deliberadamente assistir a uma “corrida de toros”. Em primeiro lugar, aprecio muito o nome. Corrida. Bem quiseram. Bem gostariam os tourinhos poder atirar a toalha, pular a cumbuca gigante de madeira e simplesmente dizer “Fui”. Portanto a corrida é, como a nossa nesta vida moderna, correr para não chegar a lugar algum, ou sendo mais realista, correr para alguém te espetar no lombo umas tantas espadas. Mas correr é bom, ativa o organismo e combate o status quo.

Chegamos a corrida e chovia muito. Permitiu-me primeiramente explorar o mapa madrileño que confesso conheço-o pouco. A legendaria “Las Ventas” está distante a nada mais nada menos que três paradas de metro da minha casa.

Tomamos umas cervejas para “aquecer” da chuva e do frio e entramos na arquibancada. Sentamo-nos ao lado dos aficionados e já fizemos amigos. O sujeito ao lado me ensinou tudo sobre a arte da tauromaquia.

Eram cinco corridas, aguentamos as quatro primeiras, não porque tivemos um embaralho moral ou nada pelo contrário, foi o frio mesmo e o corpo todo molhado da chuva que nos fez levantar bandeira e partir. Detalhe: compramos os ingressos mais baratos que diziam ¨sol¨, de sol não ouve nada, devíamos ter escolhido sombra, a outra opção.

Os três primeiros touros, pesando algo entre 450 e 550 kgs cada, foram facilmente eliminados. Cada um foi um espetáculo de quatro atos: os trabalhos iniciais do cavaleiro com uma grande lança e de seu cavalo-cego-surdo, o apelidado (por nós) toureiro-gafanhoto que já lhe fere umas outras tantas pinças, os toureiros-palhaço que confundem o touro e por fim o toureiro que desfere o golpe mortal.

O incrível foi a quarta corrida. O touro tão valente e resistente, aguentou firme como se fosse o Maguila, que nunca soube ganhar mas aprendeu a apanhar. Suportou o cavaleiro, o toureiro-gafanhoto, os palhaços e o toureiro. Este último, saiu vaiado e cabisbaixo, seguro que o máximo que conseguirá fazer depois desta experiência é ser açougueiro.

Já o tourinho, ao qual todos da plateia já havíamos empatizado com ele neste momento, viu chegar um rebanho de boizinhos amigos e treinados para tranquilizar-lhe e levar-lhe ao estábulo. Olhou-os a distancia, desconfiou, mas depois aceitou o convite e juntou-se ao rebanho. Deixou-se levar, já cansado, sangrando e assustado, por seus primos eunucos, e pelo pastor (sim! Tinha um pastor trajado a carácter e tudo!). Sumiu por entre os portões. Entrou e saiu vivo, embora um pouco menos vivo do que antes.  Dizem que para ser toureiro é preciso colhoes. Eu discordo. Para ser touro é preciso ter colhoes.

 O tourinho, os eunucos e o pastor.

O rebanho.


Uma recordaçao audiovisual da experiencia tauromaquica.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo blog, é uma óptima ideia para partilhar e guardar lembranças. Está muito bem decrito e é a sua cara. Vou continuar lendo. Obrigada. Um beijo
    Lili

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