segunda-feira, agosto 13, 2012

O homem-aranha

Série: Os grandes da família

Vila Moura, 8 de agosto de 2012

Vai lá e fecha a janela, meu filho. Assim instruiu-me a cautelosamente passar revista àquela e as demais janelas do apartamento. Ele pode descer pelo vão do prédio e roubar todas as nossas coisas, chegou ainda a argumentar para confirmar a relevância daquela missão. Para o pouco de juízo que uma criança de dez anos pode ter, considerei aquilo um tanto esquisito. Já os demais que estavam por perto riram-se e acharam aquilo uma reação exagerada e descabida.

Assim me recordo ainda hoje das primeiras imagens que tenho dela. Chamava-se Severina Felix, nascida algures no Rio Grande do Norte no começo do século vinte. O ano? Não importa, pois mesmo que palpitasse neste texto, qualquer tentativa seria falsa, pois nem ela sabia.
Vinha do sertão e sertaneja nunca deixou de ser. Morou na capital política do país por certo tempo com a minha tia e também em São Paulo, mas nunca perdeu a astúcia, sabedoria e simplicidade do viver nordestino.
Seu pai era vaqueiro, fardado a caráter com gibão, chapéu de couro e peixeira. Corria solto pelo agreste e deixou como herança à sua filha a tradição do conto e do sobrenatural. De sua mãe pouco se sabe. Provavelmente ao entrar perto da adolescência foi entregue aos meus avós para viver com eles, um costume muito comum no nordeste daqueles tempos.

Supostamente era um pouco mais nova que minha avó, mas isto era um tabu para ela, sempre dizia que a Severina, ou Nega como todos a chamávamos, era a mais velha.

Cresceu e viveu conosco. Viu nascer a todos nas últimas três gerações da minha família brasileira, excepto a minha tia Iris que era a mais velha. Acredito também que o cuidar da tia Iris foi um dos motivos pelos quais foi "contratada" pelos meus avós. Foi de fato uma grande mãe para todos nós. Sempre disposta, sempre interessada em alguma fofoca da família, mas antes de tudo, preocupada e uma fonte infinita de amor e carinho.

A primeira vez que assistiu uma novela de começo ao fim, chorou muito pelas vissicitudes dos personagens, especialmente de um certo galã que morrera tragicamente. Tamanho foi o seu susto ao ver este mesmo ator já camuflado em outro personagem tres novelas a seguir! Nao pôde acreditar! Pensou que estava morto! Cruz e credo! Valei-me! Certamente disse.

O seu cuidado era especial, nunca faltava comida e se chegava um desavisado nao passava fome. O único que pedia era alguma novidade ou notícia do povo, como carinhosamente chamava a todos os demais que nao estavam presentes.
Já nos últimos anos de vida, voltou ao Rio Grande do Norte quando minhas tias se aposentaram, já nao fazia sentido estar em Sao Paulo. Foi viver com a sua família sanguínea. Combinamos que lá eles lhe cuidariam e em troca ajudaríamos com os custos. Fui lá algumas tantas vezes, sempre que pude, para visitá-la. Notava-se que não estava no seu habitat. Não era o seu povo, não lhe apetecia aquelas novidades, queria saber das nossas. Quando chegávamos abria um sorriso enorme e aquela risada muito particular, pausada e envolvemente. Já muito debilitada, com as tripas em geral a falhar-lhe, buscava energias para transmitir-nos todo o seu amor através de um olhar muito atento, uma cabeça e memória melhores que as de um elefante e um querer-bem que nao cabia dentro de sí. Da última vez que a vi, com os dedos secos e trêmulos levantou aqueles grandes óculos de fundo de garrafa, limpou as lágrimas e nos disse a todos, adeus meus filhos.

Depois de alguns tantos anos do seu falecimento, relembro-me como se fosse hoje, estava na casa do meu pai, tomando café-da-manhã, café preto, pão com manteiga e o sempre presente mamãozinho, lendo o jornal Estado de São Paulo e atento-me à manchete no caderno Cidades: Preso ladrão que trepava-se pelos vãos dos prédios para assaltar apartamentos do centro de Sao Paulo. Pois é, o ser sertanejo nao é uma origem, nem ofício, mas sim um dom.
Obrigado Severina por todas as alegrias e boas recordações que me regalaste nesta nossa vida Severina.

Uma das últimas visitas coletivas da família a Natal. Nota-se aqui praticamente toda a "terceira geração" (falta o Lucas) e quase todos os respectivos "in-laws". Lá está ela no meio do seu povo.

Video: Preso o homem-aranha de Londrina. Para aqueles que é preciso cair leite do céu para acreditarem que vacas voam. Se em Londrina tinha homem-aranha, imaginem em São Paulo!

3 comentários:

  1. Anônimo4:08 AM


    bela viagem pelas vazadas veias nordestinas, a doce e áspera sertaneja Severina Félix - flor de mandacaru, misericordiosa água de cacimba - como personagem. foi a última narradora que conheci daquelas paragens abandonadas pelo Sofrimento, que nem lá quis fazer a sua morada definitiva, voando para os céus cristãos prometidos. a nossa Tatái, sonoridade indígena derramando ternuras pelos seus cabelos de cabocla, reviverá pela blogosfera afora na crônica, talhada em madeira, fogo e amor, de dom Thiago Lícias de Oliveira. abraços deste vaqueiro despatriado do sertão de Angicos.

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  2. Que lindo texto, Thi. Fiquei encantada! beijos e saudades

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  3. Filizmente meu fio!!! Como ela diria (dizendo que sua mãe lhe ensinou): "Quem pranta, cói"! No seu caso, só plantou amor. Privilégio dos que puderam pegar carona em sua passagem por aqui. Anjo altruísta incomparável. Referência de amor ao próximo. Valha-mi Deus! Que saudade! Obrigado por preservar sua memória para o mundo, pois no nosso mundo ela viverá para sempre. Bjs do primo!

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