sábado, novembro 24, 2012

Macrocosmos convulsionado




Madrid, 24 de Novembro de 2012


Muitos amigos me perguntam como vai a vida pela Espanha. Costumo lhes responder que tudo legal e que na verdade o microcosmos é o que importa, pois na verdade a vida é sempre igual, trabalho, casa, comer, dormir, etc.

Entretanto ontem vivemos uma experiência bastante ilustrativa do que se tem passado neste país e que de certa forma o macrocosmos é também muito importante.

Compramos por internet há duas semanas duas entradas para o concerto do Paquito de Rivera, grande clarinetista cubano. Tudo certo, o show estava programado para as 21.00 e o local era perto de casa. Anteontem, dois dias antes do concerto, recebi um e-mail bastante esquisito informando de uma mudança no horário, começaria na verdade as 23.00. Enfim, isto me permitiu dormir uma sestinha para aguentar a noite (pareço já um velho!).

Pois bem, quando lá chegamos, intencionávamos pegar os ingressos e tomar uma cerveja e um aperitivo antes do início. Mas não foi possível. Quando entramos no teatro, um clima bélico se havia instaurado. Bombas, apitos e gritaria se ouviam por todos os lados. Já com o meu DNA de RH pensei: isto é um piquete e deve ser alguma greve. Pois bem, efetivamente o era.

A história se resume assim: o governo espanhol, incapaz de pagar as suas contas, continua cortando custos onde pode, mas costuma cortar mais nos pobres trabalhadores que na classe política (alguma semelhança com o Brasil?). Neste mesmo dia do concerto do Paquito, despediram 33% do pessoal de todos os teatros públicos. Os funcionários estavam furiosos.

O show correu bem e o Paquito foi impecável com seus rápidos dedos a digitar notas musicais num belo clarinete de madeira cor-de-âmbar.

Sentia-me como um autista, tentei aproveitar o espetáculo mas no íntimo não o fiz. Impossível estar alheio a dor humana de tantos trabalhadores, pessoas que no fundo, nada tem a ver com os problemas macroeconômicos e os descalabros dos que nos governam.

Neste ano já presenciamos mais de 3.000 greves, protestos, reclamações e passeatas somente na cidade de Madrid. Cada dia é uma nova, já não surpreende mais.

A cada dia vemos mais mendigos nas ruas e pessoas sendo desalojadas de suas casas. O pior é que acaba por gerar um sentimento nas pessoas que ainda não foram afetadas, similar ao da classe media e alta de São Paulo já experimenta há décadas: o do distanciamento e da política da não participação, como se estas pessoas não existissem ou não fossem sequer pessoas.


Panfleto do protesto, distribuído pelo sindicado às portas do teatro:
Nota-se que aqui na Espanha a política de muitos caciques e poucos índios também existe!




Um comentário:

  1. Thiago, meu querido e adorado sobrinho, você é um escritor e tanto. E sabe porquê, por causa da sua maneira de ver o mundo. Na verdade é isso que faz um escritor - a sensibilidade. Seu macrocosmos tem uma aura especial e faz com que você lhe dê uma atenção mais atenta, transformando-a numa agradável comunicação. Obrigada pelas suas histórias. Elas são um grande presente, no presente que estamos vivendo.
    Lilly
    Um beijo muito grande.

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