Você quer comprar um camelo pelo preço de um burro!!!
Tanger, 4 de maio
de 2013
Não sei por onde começar. Conhecer Marrocos é uma experiência tão
intensa que mal sei que linhas iniciais melhor descrevem as sensações de tão
poucos dias.
De arranque e como disclaimer
inicial, quero ressaltar que em praticamente três dias de viagem, ocorreram-me
os seguintes eventos: atrasos e mais atrasos de todos os tipos e formas nos
serviços, pilantragens e salafrariçes em geral, fui atropelado (este evento
merece um conto a parte) e vi lugares, senti cheiros e vivenciei coisas que
jamais poderia imaginar.
Descobri para começar que um lugar tão perto da Europa pode ser
diametricamente oposto ao que entendemos por civilização. Já havíamos estado em
Tarifa na casa do nosso amigo Manu e da janela via a África ao outro lado do
estreito de Gibraltar e me perguntava o que estava reservado para mim ao outro
lado. Nesta viagem descobri.
Chegámos em Tarifa para pegar o ferry-boat das 14:00. Primeiro
aprendizado, ainda em terras europeias o poder marroquino toma forma: saímos as
16:30. A travessia é bonita e já se notam claramente as figuras sempre-presentes
em Marrocos: mulheres encapuçadas, homens barbudos e crianças saltitantes.
Ao cruzar o estreito, lá estávamos em Tanger e o objetivo era pegar já
o carro para ir diretamente a Chefchaouen, um povoado no interior a aproximadamente 150 km de Tanger. Enfim, ao chegar lá, a loja estava fechada, não
atendiam o telefone e não havia na cidade carros disponíveis para aluguel.
Incrível, com o Pedro, namorado da Tia Clarinha, aconteceu algo similar, chegou
na Europcar e não tinham carro para ele. Depois de muita briga conseguimos
dois carros e fomos rumo a Chaouen. Segundo aprendizado: nunca acreditar que
realmente uma reserva em Marrocos se transforme num produto consumível, podem não
te entregar o acordado!
Já era tarde quando chegamos em Chaouen e praticamente fomos dormir.
No dia seguinte o pequeno povoado nos surpreendeu: as casas e ruas são todas
pintadas em azul! Distintos tons: claro, escuro, quase-branco, ... ,
explicou-me o Fernando que era a forma de proteger contra as pragas e era uma
reação natural do dióxido de ferro abundante na região. O povoado era muito
pobre mas muito bonito. Fiquei impressionado com uns sujeitos “místicos” usando
umas batas muito grandes com gorro e que à primeira vista me pareceram
beatos-salús islâmicos mas depois entendi que é o normal neste país. Os homens
usam estas batas e ao fim da viagem já podia apreciar as distintas variações:
batas de trabalho, batas de lazer e batas de “haute couture” para eventos importantes e casamentos.
No dia seguinte chegamos em Fez. Entendi que foi capital de um
grande império árabe e nela está a maior medina do mundo. Aprendi que Medina é
a cidade antiga árabe muralhada. A medina na verdade é uma ratoeira de pequenas
vielas entrelaçadas que mareia o melhor dos navegantes. É impossível se
localizar e identificar padrões de planejamento urbano. O mais interessante é o
formato das casas: todas viradas para dentro, por fora são horríveis, sujas,
velhas, imundas mesmo mas já dentro são grandes, espaçosas, todas com um grande
vao – o pátio – ao meio que concatena a vida familiar em torno de um chafariz
para juntar as escassas águas das chuvas. Fomos até mesmo na menor rua da
medina – o Fernando podia obstruí-la apenas com os ombros, um encostado numa
parede e outro na outra!
O povo é bastante simples, percebe-se que a maioria da população se
dedica à agricultura e ao comércio de pulgas, parece que todos estão vendendo
alguma coisa a qualquer momento, tipo mascates mesmo.
Os homens à primeira vista parecem despistados, estão sempre
sentados, à sombra, descansando não sei de quê pois verdadeiramente não os vi
na labuta muito não. Passam, reparam em tudo, verborreiam em árabe qualquer
obscenidade as mulheres do grupo e passam desapercebidos. Sempre sentados em
cafés a tomar chá de menta ou a conversar em pequenos negócios.
O interessante deste povo é indubitavelmente as mulheres. Neste
país, podem escolher a vestimenta, algumas andam à moda europeia, com jeans,
roupas até mesmo algo justas, outras já desfilam cobertas dos pés à cabeça com
roupas, burcas ou sei lá como se chamam. O que me cativou foram os seus olhos,
olhos “oblíquos e dissimulados” como diria nosso Machado. Reparam em tudo que
vêm e não lhes escapa nada. Sussurram e transmitem paixão e movimento, que
deveras seus corpos escondidos e amputados pelas roupas as transformam literalmente em passarinhos em
gaiolas. Pobres andorinhas sem asas para voar. Algumas destas mulheres deixaram
a minha Tati bastante impressionada pois uma de fato não tinha nem sequer os
olhos à mostra, estava totalmente coberta.
Outra experiência é ir as compras. Dentro da medina, a bagunça é
algo organizada, os souks são zonas de comércio e geralmente estão
especializados, artigos de couro, roupas de noivas (cafonésimas e cheias de
lantejoulas!), temperos, metais, etc. O comércio é a grande arte dos árabes e
ninguém é capaz de vencê-los. Num dos passeios que fizemos, fomos ver a zona
dos curtumes. Subimos ao terraço de um edifício próximo e de lá pudemos
apreciar a operação do curtume, o árabe que lá nos levou ao abrir a porta do
terraço nos deu um raminho de hortelã, à priori não entendi bem mas depois sim,
era para coloca-lo nas narinas para suportar o cheiro. A experiência foi
interessante e na volta, como na Disney após uma atração, você passa pela
“lojinha”! E na lojinha o Fernando tentou engatar numa negociação para a compra
de uma pasta de couro.
A técnica da venda é relativamente simples mas muito elaborada:
primeiramente o vendedor te explica os benefícios do produto, a mala é de couro
de camelo, trabalhada e cosida manualmente por um artesão da cooperativa e
insiste sempre em palavras chaves camelo, artesão e cooperativa. Tu perguntas o
preço e ele não responde e continua reforçando as palavras chave. É incrível!
Depois quando entra no preço ele explica que já não se fabricam produtos assim,
que é raro e que os novos lotes e produtores não tem a qualidade de antes. Enfim,
quando chega no preço, se você não aceita o preço inicial, ele te pergunta:
quanto você pagaria por isto? Aqui é o ponto de inflexão da negociação! Ele
sabe por qual preço ele aceita vender mas você não, e também obviamente você nao
quer jogar lá embaixo o preço para não ofender. Qualquer preço que você
regatear e não for uma ofensa ele usará a estratégia de “vou perguntar para o
meu chefe” (ou diretor da cooperativa) e o último movimento deste xadrez é que
o chefe aprovou ou não. Em geral o chefe não aprova mas se você der as costas o
chefe rapidamente aceita!
Há outras variações deste regateio que não vivenciamos. Algumas
vezes fazem coisas para você ficar desconcertado e envergonhado para te forçar
a comprar. O Fernando contava que certa vez numa loja de tapetes o sujeito
gritava com um velhote para trazer os tapetes, abri-los e voltar a guardá-los.
Isto o deixou tão desgostoso que para acabar a história comprou um tapete e se
escapuliu. Quanto a pasta de couro, obviamente que a comprou e foi engambelado
pelo vendedor! Mas a pasta é bonita. Nesta mesma loja, o próprio vendedor vendo
o êxito de sua estratégia da pasta tentou algo similar com o meu primo Afonso, o cercou com outro árabe num corner cheio de jaquetas de couro e lhe ofereceu
uma jaqueta por 200€. O Afonso sem saber como reagir, ao ser indagado quanto pagaria
pela jaqueta, respondeu 50€! Aqui ele tocou no ponto fraco do árabe. Foi uma
ofensa e a resposta sensacional foi “Você quer comprar um camelo pelo preço de
um burro!!!”. E saiu raivoso a desatinar
blasfêmias contra o Afonso. Nunca mais vou me vou esquecer!
Outro capítulo à parte é a comida. Como sempre, grande objetivo de
qualquer aventura. Nestas bandas, não deixe de pedir “saladas marroquinas” que
é uma miríade de saladas de todos os tipos e uma melhor que a outra. Também no
café da manha prove as panquequinhas com mel. Uma delícia. Já o resto da comida
espere sempre os mesmos sabores: tagine de carne com ameixas e cuscuz. Em
homenagem a minha tia Tetéia e ao Jarbas pedimos e comemos uma torta de pombo!
Uma delícia!
Se estás procurando um lugar de contrastes, de sabores intensos, de
um povo misterioso, alegre e diferente, se uma ou mais chateações, imprevistos
ou trapalhadas do povo hospedeiro não tirar o teu bom humor e vontade de
aprender dos demais, Marrocos é para ti. Já a decisão de se ao final da
experiência qualificaria a viagem como um produto de camelo ou de burro, isto
já deixo ao teu próprio juízo. Quanto ao meu, acho que vi um burro com duas
corcovas!!!
Esta é Chefchaouen, ou Chaouen, a cidadezinha azul de judeus-marroquinos. Muito bonita!
Esta foto é em homenagem a minha tia Tetéia. Estou comendo uma "pastela" (bolo salgado de pombo!) .... uma delícia!
Esta é a RUA mais estreita da medina de Fez. O Fernando bloqueou-a de ombro a ombro! O incrível é que por debaixo da linha da cintura havia uma porta para uma casa. Eu e a Clarinha vimos o interior da mesma já que a moradora se interessou por tanto barulho que fizemos lá fora...
Este é o curtume da cidade. Uma cena famosa. Na foto é bonita, na realidade é muito fedida, por isto te regalam um raminho de hortelã ao aproximar-se do lugar.
E aqui por fim o nosso incrível negociante. O peguei no exato momento que após vender a pasta ao Fernando, leva um fora do Afonso e sai esbravejando a famosa frase "Você quer comprar um camelo pelo preço de um burro!!!"