domingo, novembro 17, 2013

Um texto que gostaria de tê-lo escrito eu mesmo...

Madrid, 17 de novembro de 2013.

Um texto que gostaria de tê-lo escrito eu mesmo…

Pois é, temos que reconhecer, quando alguém te supera, tire o chapéu e agradeça. Este texto está fantástico e o personagem principal sou fa de carteirinha há muitos anos. Espero um dia chegar a altura de homenageá-lo, como fez este repórter. Tenho uma idéia no forno e semi-escrita há muito tempo sobre o Zezito, mas ainda faltam alguns detalhes.

Espero que gostem, para os que - por acaso - nao saibam, o Zezito é o avô materno da Tati.

Bom proveito!

Thiago


quarta-feira, setembro 18, 2013

Chatarrrrreeeerrrroooo!!!

Chatarrrrreeeerrrroooo
Madrid, 18 de Setembro de 2013.


Hoje sai tarde de casa, ontem o avião atrasou duas horas voltando de Londres, fui dormir as 02:00am. Hoje tomei o café-da-manhã com a Tati com tranquilidade na padaria embaixo de casa.

Quando saímos passou um senhor de meia idade , baixinho e entroncado, gritando o que há 3 anos escuto e nao percebo...

"Chatarrrrreeeerrrroooo"!!!

Foi a oportunidade! Me aproximei e perguntei o que ele tanto gritava.. Com uma voz de barítono de opera me respondeu "compro ferro"!!!

Pois assim é a vida, logo numa manha de fim de verão em Madrid, o nosso barítono ferreiro me lembra que na vida nem todos tem a sorte de ser o barbeiro de Sevilha e que no fundo vamos todos levando uma vida de ferreiro de Chamberi.



Tradução: chatarrero em espanhol significa literalmente sucateiro. O nosso sucateiro que sempre passa nas ruas de Sao Paulo, também a gritar. Interculturalidades. Veja mais en http://es.wikipedia.org/wiki/Chatarra

segunda-feira, setembro 02, 2013

Histórico profissional

Histórico profissional
Madrid, 02 de Setembro de 2013.

Uma demonstraçao da capacidade, visao e estratégia que já nos "remotos" anos 90 as empresas brasileiras apostavam por contratar grandes talentos!

Deve ser o meu primeiro holerith, acho que nao cheguei a receber este salario, mas o documento histórico serve para lembrar os "sempre bons tempos".

O problema, lembro-me bem, foi quando na primeira sexta-feira nao apareci para ir jogar futebol! Tinha que demonstrar a minha classe em outras bandas! A experiencia nao durou muito, mas como dizia o poeta, "Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure. "

O mais incrível, ainda por ser encontrado para os anais da história econômica brasileira foi o meu primeiro curriculum vitae. Ajudou-me o meu pai. Foi para uma corretora de valores da Bolsa de Sao Paulo. Lembro-me de algumas frases incríveis:

"Vim ao mundo para brilhar", 

"Sejam rápidos em me contratar pois outros o farao!" 

e frases muito criativas e muito avançadas para a época. Nem responderam àquela carta magnífica e imortal.

Hoje como responsável de RH de uma multinacional, acho todos os CVs iguais e insossos. Assim como na arte, alguns conseguem nas empresas se diferenciar e sair do comum. Em tudo que fez o meu pai, isto sem dúvida conseguiu e continua se superando.

sábado, julho 20, 2013

Um verdadeiro herói


Um verdadeiro herói

Série: Os grandes da família
Madrid, 20 de Julho de 2013


Heróis não nascem por acaso. Como nos filmes ou nos gibis, eles todos tem histórias de superação, desventuras e sempre algum poder especial.

Matagaio nasceu no interior do Rio Grande do Norte, algures desconhecido. No começo do século XX, época na qual a disponibilidade de recursos e principalmente educação eram mais escassos que água na cacimba. Vinha do interior e sem paradeiro exato dos pais, ao dar-se por gente resolveu tomar o rumo à capital.

Tampouco Natal naquela altura era o que hoje podemos chamar de capital, mas tinha hospital com máquina de raio-x, ou “foto dos ossos” na linguagem contemporânea local, e até mesmo semáforo, avanços da civilização moderna.

Quando viu o mar pela primeira vez, não podia acreditar que havia tanta água disponível. Correu à beira, mergulhou e lambuzou-se de tanto beber aquela água salgada e marinha. Teve diarreias e desidratação nos seguintes três dias, mas algo aprendeu: aquilo era onde sempre deveria ter vivido e sabia que pertencia àquele lugar. Aquela imensidão azul, vasta, profunda e misteriosa.

Já era mocinho e foi oferecer seus serviços por toda a cidade. Chegou num lugar simples e pobre, onde alguns pescadores ao voltar do seu ofício, ofereciam os produtos do mar numas barracas fabricadas artesanalmente. Este lugar era o Canto do Mangue. Ofereceram-lhe que limpasse e lavasse o lugar todos os dias, após a feira.

No canto do mangue, Maragaio aprendeu tudo sobre o mar, após limpar o lugar, pelos restos dos peixes sabia diferenciar entre um cação chifrudo, galhudo, toninha e ou o frango. Gostava mesmo é de encontrar as mangonas, que preparava como ninguém num molho especial – talvez para suavizar o sabor do peixe já marrento, resto da feira.

A cada dia que passava, os pescadores foram se afeiçoando cada vez mais a Maragaio, com sua amabilidade, prudência e bom-humor. Já adulto começou a participar das pescarias e foi no alto-mar onde os seus superpoderes foram revelados.

Dizem muitos, e alguns tantos juram de pés juntos, que estiveram naquele dia no mar com Maragaio. O mar estava revoltoso e decidiram ancorar o barco num arrecife que sabiam que estava a 40 metros de profundidade aproximadamente, muitos afirmam que era um abismo marítimo de mais de 100 metros, mas este que vos escreve, prefere acreditar nas primeiras versões. A pescaria foi boa, muitos lambarus e um grande cardume de pintadinhos.

À hora de desancorar, não havia maneira de tirá-la do fundo do mar. Problema comum que custava à frota de barcos de Natal muito dinheiro todos os anos. Maragaio ofereceu-se a tentar mergulhar e recuperá-la. Lá desceu Maragaio com seu grande tórax e sua inocência. Já tinham-se passado mais de 10 minutos e nada de Maragaio voltar.

Voltou com a grande ancora na mão para espanto de todos. Todos no barco pensavam que Maragaio tinha morrido afogado. A partir de este dia, sua alcunha passou a ser Seu Maragaio.

A história correu todo o litoral potiguar e Seu Maragaio era solicitado por todos, de Areia Branca à Baia Formosa, para recuperar âncoras e mergulhar nas grandes profundezas. As vezes passava mais de meia hora lá embaixo e para surpresa geral sempre voltava com um sorriso na cara e uma poita na mão.

Nosso grande super herói também tinha outra proeza. Dizem que ao longo dos anos tornou-se um especialista na arte que ele próprio inventara: pescar tubarões. Seu Maragaio era muito valente e nem tubarão nem nada lhe imprimia medo.

Lá no fundo do mar, sabia bem que os tubarões eram seres estúpidos e medrosos. Lá em cima, era um ás na pescaria de tubarões, inventou Seu Maragaio a técnica da pesca de tubarão usando galinhas. Enfiava uma galinha viva no anzol, a jogava no mar e era um sem-fim de embarcar os pobres tubarões que caiam na sua armadilha.

Hoje em dia, se quiser conhecer mais sobre as peripécias de Seu Maragaio, basta visitar o Canto do Mangue em Natal, que ainda muitas outras histórias contam sobre suas proezas e poderes. Muitos afirmam que viajou por todo o mundo em busca de grandes tesouros que repousavam no fundo do oceano, da Índia à Costa Angolana.

O certo é que para ser um super-herói basta cumprir com um de dois requisitos: ou ter poderes especiais, ou existir através de um bom contador de histórias, algo exagerado e mentiroso como o meu querido e incrível Avô, Seu Oliveira. Este sim, um grande herói.


domingo, junho 16, 2013

Da globalização e tragicomédias árabes


Da globalização, ciclistas árabes e mazelas exportáveis

Madrid, 16 de Junho de 2013

Estávamos esperando a três horas a vinda dos carros em Tanger, quando quis buscar um banheiro para me livrar dos excessos na bexiga, a agencia de aluguel de carros nao tinha banheiros para clientes, o que me obrigou a buscá-lo em outras paragens.

Ao ver o meu movimento, a minha querida “sempre-por-fazer-xixi” mae, quis acompanhar-me. Fomos os dois rua abaixo buscar um bom pouso para nossas aflições. Encontramos um restaurante de pizzas baratas que tinha bom aspecto e que estava aproximadamente a uma quadra da agencia. Atravessamos uma avenida de mao dupla e lá chegamos.

Para nao despertar suspeitas num pais estranho, compramos uma garrafa d’água, fizemos ar de despistados e fomos ao que nos interessava. Ao chegar lá realizamos que era uma latrina como aquelas que há muito nao se veem, apenas um buraco no chão e uma louça muito sugestiva com já a marcação de onde os aflitos devem posicionar os seus pés. Ao lado, um baldinho com água para, após o fato consumado, limpar o ambiente. Até era bastante decente o lugar. Enfim, com métodos inspirados no homem-aranha resolvemos os nossos problemas.

Ao voltar ao ponto de encontro, a Tati quis que eu a levasse no mesmo lugar pois também lhe tinha dado vontades de desafogar-se. O Pedro, namorada da Tia Clarinha, também nos acompanhou. Foram mais ousados, nem sequer garrafa d’água nem nada, entraram e foram diretamente praticar o homem-arranhismo.

Já à volta, o Pedro atravessou a avenida movimentada fora da faixa, eu e a Tati fomos até a esquina para cruzá-la. Olhei para a direção de onde vinham os carros e demos os primeiros passos...

PAFF!

Senti um grande desconcerto e nao sabia o que tinha acontecido. Quando dei por mim, estava a cair no asfalto, segurei firmemente as pernas e num movimento parecido a caída do Aikido, embrulhei-me e me segurei. Tentei me levantar num golpe mas a cabeça mareou fortemente. Entao me tateei para ver se faltava algo num súbito movimento de defesa e totalmente irracional. Estava tudo nos seus devidos lugares. Quando abro os olhos vejo a cara de espanto da Tati. Vou mancando até a esquina, e livre dos carros e de outros veículos entendo o que aconteceu. Posso ainda ver o árabe acelerando o pedalar para desaparecer da minha vista. Fui atropelado por uma bicicleta que vinha na contramão do fluxo de carros. Nao buzinou, nem gritou, nem nada. Simplesmente passou por cima de mim num piscar de olhos.

Depois de soltar uns belos palavrões em português e maldizer todas as gerações do infeliz, chegando mesmo a tantas gerações atrás que acho que cometi um pecado, pois seguramente chegou até a tocar ao profeta Maomé as maledicências.... bem na hora que mal caminhar podia, tivemos que voltar ao ponto de encontro pois supostamente os carros já tinham finalmente chegado. Sentia uma dor e um calor estranho na perna esquerda e nos ombros, produto seguramente do choque com o ciclista árabe.

Ao chegar lá, já estavam todos nos carros e havia um lugarzinho num carro para mim. Minha cabeça doía e me sentia bastante fraco. Nao estava a raciocinar bem e a única coisa que queria era ir atrás daquele ciclista para dar-lhe uns belos safanões.

Entrei no carro, a Tati e todos a fitarem-me com ar de pena, a cabeça girando e a cólera a tomar conta do meu corpo, quando percebo o rádio do carro, a tocar em altos volumes uma música que nao era árabe, era algo familiar para mim.

O que estaria a tocar em Tanger numa rádio do carro de aluguel que poderia ser familiar para mim? Entre as dores, a raiva e a curiosidade, esta sim, a que sempre tem mais poder dentro de mim, tentei decifrar ao meio de batuques estranhos o que era aquilo.

Entao a Tati desembucha: “meu, isto é a mulher melancia!”

E sim, efetivamente, era a mulher melancia! Com sons esquisitos, um remix magrebino de funk carioca.

Percebi então que maior desorientação que um atropelamento por um ciclista herdeiro de Maomé é perceber que o mau gosto espalha-se pelo mundo globalizado, manifestando-se através de mulheres melancias ao estilo árabe. O roteiro deste conto poderia ter sido suavizado se ao final pelo menos tivesse sido uma bossa-nova como fundo desta burlesca tragicomédia. Nestas horas temos que sempre nos lembrar que nao vale a pena reclamar, pois pode sempre piorar!

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 Aproveito para compartilhar uma foto interessante que nao a publiquei no conto anterior.

Está com fome? Quer um ensopadinho de cabeça de camelo?
(Foto tirada no mercado da medina de Fez, seçao dos acougueiros)

quinta-feira, maio 09, 2013

Você quer comprar um camelo pelo preço de um burro!!!


Você quer comprar um camelo pelo preço de um burro!!!
Tanger, 4 de maio de 2013


Não sei por onde começar. Conhecer Marrocos é uma experiência tão intensa que mal sei que linhas iniciais melhor descrevem as sensações de tão poucos dias.

De arranque e como disclaimer inicial, quero ressaltar que em praticamente três dias de viagem, ocorreram-me os seguintes eventos: atrasos e mais atrasos de todos os tipos e formas nos serviços, pilantragens e salafrariçes em geral, fui atropelado (este evento merece um conto a parte) e vi lugares, senti cheiros e vivenciei coisas que jamais poderia imaginar.

Descobri para começar que um lugar tão perto da Europa pode ser diametricamente oposto ao que entendemos por civilização. Já havíamos estado em Tarifa na casa do nosso amigo Manu e da janela via a África ao outro lado do estreito de Gibraltar e me perguntava o que estava reservado para mim ao outro lado. Nesta viagem descobri.

Chegámos em Tarifa para pegar o ferry-boat das 14:00. Primeiro aprendizado, ainda em terras europeias o poder marroquino toma forma: saímos as 16:30. A travessia é bonita e já se notam claramente as figuras sempre-presentes em Marrocos: mulheres encapuçadas, homens barbudos e crianças saltitantes.

Ao cruzar o estreito, lá estávamos em Tanger e o objetivo era pegar já o carro para ir diretamente a Chefchaouen, um povoado no interior a aproximadamente 150 km de Tanger. Enfim, ao chegar lá, a loja estava fechada, não atendiam o telefone e não havia na cidade carros disponíveis para aluguel. Incrível, com o Pedro, namorado da Tia Clarinha, aconteceu algo similar, chegou na Europcar e não tinham carro para ele. Depois de muita briga conseguimos dois carros e fomos rumo a Chaouen. Segundo aprendizado: nunca acreditar que realmente uma reserva em Marrocos se transforme num produto consumível, podem não te entregar o acordado!

Já era tarde quando chegamos em Chaouen e praticamente fomos dormir. No dia seguinte o pequeno povoado nos surpreendeu: as casas e ruas são todas pintadas em azul! Distintos tons: claro, escuro, quase-branco, ... , explicou-me o Fernando que era a forma de proteger contra as pragas e era uma reação natural do dióxido de ferro abundante na região. O povoado era muito pobre mas muito bonito. Fiquei impressionado com uns sujeitos “místicos” usando umas batas muito grandes com gorro e que à primeira vista me pareceram beatos-salús islâmicos mas depois entendi que é o normal neste país. Os homens usam estas batas e ao fim da viagem já podia apreciar as distintas variações: batas de trabalho, batas de lazer e batas de “haute couture” para eventos importantes e casamentos.

No dia seguinte chegamos em Fez. Entendi que foi capital de um grande império árabe e nela está a maior medina do mundo. Aprendi que Medina é a cidade antiga árabe muralhada. A medina na verdade é uma ratoeira de pequenas vielas entrelaçadas que mareia o melhor dos navegantes. É impossível se localizar e identificar padrões de planejamento urbano. O mais interessante é o formato das casas: todas viradas para dentro, por fora são horríveis, sujas, velhas, imundas mesmo mas já dentro são grandes, espaçosas, todas com um grande vao – o pátio – ao meio que concatena a vida familiar em torno de um chafariz para juntar as escassas águas das chuvas. Fomos até mesmo na menor rua da medina – o Fernando podia obstruí-la apenas com os ombros, um encostado numa parede e outro na outra!

O povo é bastante simples, percebe-se que a maioria da população se dedica à agricultura e ao comércio de pulgas, parece que todos estão vendendo alguma coisa a qualquer momento, tipo mascates mesmo.

Os homens à primeira vista parecem despistados, estão sempre sentados, à sombra, descansando não sei de quê pois verdadeiramente não os vi na labuta muito não. Passam, reparam em tudo, verborreiam em árabe qualquer obscenidade as mulheres do grupo e passam desapercebidos. Sempre sentados em cafés a tomar chá de menta ou a conversar em pequenos negócios.

O interessante deste povo é indubitavelmente as mulheres. Neste país, podem escolher a vestimenta, algumas andam à moda europeia, com jeans, roupas até mesmo algo justas, outras já desfilam cobertas dos pés à cabeça com roupas, burcas ou sei lá como se chamam. O que me cativou foram os seus olhos, olhos “oblíquos e dissimulados” como diria nosso Machado. Reparam em tudo que vêm e não lhes escapa nada. Sussurram e transmitem paixão e movimento, que deveras seus corpos escondidos e amputados pelas roupas  as transformam literalmente em passarinhos em gaiolas. Pobres andorinhas sem asas para voar. Algumas destas mulheres deixaram a minha Tati bastante impressionada pois uma de fato não tinha nem sequer os olhos à mostra, estava totalmente coberta.

Outra experiência é ir as compras. Dentro da medina, a bagunça é algo organizada, os souks são zonas de comércio e geralmente estão especializados, artigos de couro, roupas de noivas (cafonésimas e cheias de lantejoulas!), temperos, metais, etc. O comércio é a grande arte dos árabes e ninguém é capaz de vencê-los. Num dos passeios que fizemos, fomos ver a zona dos curtumes. Subimos ao terraço de um edifício próximo e de lá pudemos apreciar a operação do curtume, o árabe que lá nos levou ao abrir a porta do terraço nos deu um raminho de hortelã, à priori não entendi bem mas depois sim, era para coloca-lo nas narinas para suportar o cheiro. A experiência foi interessante e na volta, como na Disney após uma atração, você passa pela “lojinha”! E na lojinha o Fernando tentou engatar numa negociação para a compra de uma pasta de couro.

A técnica da venda é relativamente simples mas muito elaborada: primeiramente o vendedor te explica os benefícios do produto, a mala é de couro de camelo, trabalhada e cosida manualmente por um artesão da cooperativa e insiste sempre em palavras chaves camelo, artesão e cooperativa. Tu perguntas o preço e ele não responde e continua reforçando as palavras chave. É incrível! Depois quando entra no preço ele explica que já não se fabricam produtos assim, que é raro e que os novos lotes e produtores não tem a qualidade de antes. Enfim, quando chega no preço, se você não aceita o preço inicial, ele te pergunta: quanto você pagaria por isto? Aqui é o ponto de inflexão da negociação! Ele sabe por qual preço ele aceita vender mas você não, e também obviamente você nao quer jogar lá embaixo o preço para não ofender. Qualquer preço que você regatear e não for uma ofensa ele usará a estratégia de “vou perguntar para o meu chefe” (ou diretor da cooperativa) e o último movimento deste xadrez é que o chefe aprovou ou não. Em geral o chefe não aprova mas se você der as costas o chefe rapidamente aceita!

Há outras variações deste regateio que não vivenciamos. Algumas vezes fazem coisas para você ficar desconcertado e envergonhado para te forçar a comprar. O Fernando contava que certa vez numa loja de tapetes o sujeito gritava com um velhote para trazer os tapetes, abri-los e voltar a guardá-los. Isto o deixou tão desgostoso que para acabar a história comprou um tapete e se escapuliu. Quanto a pasta de couro, obviamente que a comprou e foi engambelado pelo vendedor! Mas a pasta é bonita. Nesta mesma loja, o próprio vendedor vendo o êxito de sua estratégia da pasta tentou algo similar com o meu primo Afonso, o cercou com outro árabe num corner cheio de jaquetas de couro e lhe ofereceu uma jaqueta por 200€. O Afonso sem saber como reagir, ao ser indagado quanto pagaria pela jaqueta, respondeu 50€! Aqui ele tocou no ponto fraco do árabe. Foi uma ofensa e a resposta sensacional foi “Você quer comprar um camelo pelo preço de um  burro!!!”. E saiu raivoso a desatinar blasfêmias contra o Afonso. Nunca mais vou me vou esquecer!

Outro capítulo à parte é a comida. Como sempre, grande objetivo de qualquer aventura. Nestas bandas, não deixe de pedir “saladas marroquinas” que é uma miríade de saladas de todos os tipos e uma melhor que a outra. Também no café da manha prove as panquequinhas com mel. Uma delícia. Já o resto da comida espere sempre os mesmos sabores: tagine de carne com ameixas e cuscuz. Em homenagem a minha tia Tetéia e ao Jarbas pedimos e comemos uma torta de pombo! Uma delícia!

Se estás procurando um lugar de contrastes, de sabores intensos, de um povo misterioso, alegre e diferente, se uma ou mais chateações, imprevistos ou trapalhadas do povo hospedeiro não tirar o teu bom humor e vontade de aprender dos demais, Marrocos é para ti. Já a decisão de se ao final da experiência qualificaria a viagem como um produto de camelo ou de burro, isto já deixo ao teu próprio juízo. Quanto ao meu, acho que vi um burro com duas corcovas!!!

Esta é Chefchaouen, ou Chaouen, a cidadezinha azul de judeus-marroquinos. Muito bonita!

Esta foto é em homenagem a minha tia Tetéia. Estou comendo uma "pastela" (bolo salgado de pombo!)  .... uma delícia!

Esta é a RUA mais estreita da medina de Fez. O Fernando bloqueou-a de ombro a ombro! O incrível é que por debaixo da linha da cintura havia uma porta para uma casa. Eu e a Clarinha vimos o interior da mesma já que a moradora se interessou por tanto barulho que fizemos lá fora...

Este é o curtume da cidade. Uma cena famosa. Na foto é bonita, na realidade é muito fedida, por isto te regalam um raminho de hortelã ao aproximar-se do lugar.

E aqui por fim o nosso incrível negociante. O peguei no exato momento que após vender a pasta ao Fernando, leva um fora do Afonso e sai esbravejando a famosa frase "Você quer comprar um camelo pelo preço de um burro!!!"