Da globalização, ciclistas árabes e mazelas exportáveis
Madrid, 16 de Junho de 2013
Estávamos esperando a três horas a vinda dos carros em Tanger,
quando quis buscar um banheiro para me livrar dos excessos na bexiga, a agencia
de aluguel de carros nao tinha banheiros para clientes, o que me obrigou a
buscá-lo em outras paragens.
Ao ver o meu movimento, a minha querida “sempre-por-fazer-xixi” mae,
quis acompanhar-me. Fomos os dois rua abaixo buscar um bom pouso para nossas
aflições. Encontramos um restaurante de pizzas baratas que tinha bom aspecto e
que estava aproximadamente a uma quadra da agencia. Atravessamos uma avenida de
mao dupla e lá chegamos.
Para nao despertar suspeitas num pais estranho, compramos uma
garrafa d’água, fizemos ar de despistados e fomos ao que nos interessava. Ao
chegar lá realizamos que era uma latrina como aquelas que há muito nao se veem,
apenas um buraco no chão e uma louça muito sugestiva com já a marcação de onde
os aflitos devem posicionar os seus pés. Ao lado, um baldinho com água para,
após o fato consumado, limpar o ambiente. Até era bastante decente o lugar.
Enfim, com métodos inspirados no homem-aranha resolvemos os nossos problemas.
Ao voltar ao ponto de encontro, a Tati quis que eu a levasse no
mesmo lugar pois também lhe tinha dado vontades de desafogar-se. O Pedro,
namorada da Tia Clarinha, também nos acompanhou. Foram mais ousados, nem sequer
garrafa d’água nem nada, entraram e foram diretamente praticar o
homem-arranhismo.
Já à volta, o Pedro atravessou a avenida movimentada fora da faixa,
eu e a Tati fomos até a esquina para cruzá-la. Olhei para a direção de onde
vinham os carros e demos os primeiros passos...
PAFF!
Senti um grande desconcerto e nao sabia o que tinha acontecido.
Quando dei por mim, estava a cair no asfalto, segurei firmemente as pernas e
num movimento parecido a caída do Aikido, embrulhei-me e me segurei. Tentei me
levantar num golpe mas a cabeça mareou fortemente. Entao me tateei para ver se
faltava algo num súbito movimento de defesa e totalmente irracional. Estava
tudo nos seus devidos lugares. Quando abro os olhos vejo a cara de espanto da
Tati. Vou mancando até a esquina, e livre dos carros e de outros veículos
entendo o que aconteceu. Posso ainda ver o árabe acelerando o pedalar para
desaparecer da minha vista. Fui atropelado por uma bicicleta que vinha na
contramão do fluxo de carros. Nao buzinou, nem gritou, nem nada. Simplesmente
passou por cima de mim num piscar de olhos.
Depois de soltar uns belos palavrões em português e maldizer todas
as gerações do infeliz, chegando mesmo a tantas gerações atrás que acho que
cometi um pecado, pois seguramente chegou até a tocar ao profeta Maomé as
maledicências.... bem na hora que mal caminhar podia, tivemos que voltar ao
ponto de encontro pois supostamente os carros já tinham finalmente chegado. Sentia
uma dor e um calor estranho na perna esquerda e nos ombros, produto seguramente
do choque com o ciclista árabe.
Ao chegar lá, já estavam todos nos carros e havia um lugarzinho num
carro para mim. Minha cabeça doía e me sentia bastante fraco. Nao estava a
raciocinar bem e a única coisa que queria era ir atrás daquele ciclista para
dar-lhe uns belos safanões.
Entrei no carro, a Tati e todos a fitarem-me com ar de pena, a
cabeça girando e a cólera a tomar conta do meu corpo, quando percebo o rádio do
carro, a tocar em altos volumes uma música que nao era árabe, era algo familiar
para mim.
O que estaria a tocar em Tanger numa rádio do carro de aluguel que
poderia ser familiar para mim? Entre as dores, a raiva e a curiosidade, esta
sim, a que sempre tem mais poder dentro de mim, tentei decifrar ao meio de
batuques estranhos o que era aquilo.
Entao a Tati desembucha: “meu, isto é a mulher melancia!”
E sim, efetivamente, era a mulher melancia! Com sons esquisitos, um
remix magrebino de funk carioca.
Percebi então que maior desorientação que um atropelamento por um
ciclista herdeiro de Maomé é perceber que o mau gosto espalha-se pelo mundo
globalizado, manifestando-se através de mulheres melancias ao estilo árabe. O
roteiro deste conto poderia ter sido suavizado se ao final pelo menos tivesse
sido uma bossa-nova como fundo desta burlesca tragicomédia. Nestas horas temos
que sempre nos lembrar que nao vale a pena reclamar, pois pode sempre piorar!
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Aproveito para compartilhar uma foto interessante que nao a publiquei no conto anterior.
Está com fome? Quer um ensopadinho de cabeça de camelo?
(Foto tirada no mercado da medina de Fez, seçao dos acougueiros)
Adorei o seu conto, a não ser pelo seu atropelamento seria até cómico. Quanto ao ensopadinho, não muito obrigada.
ResponderExcluirContinue escrevendo sempre, você tem muito jeito.
Bjs da sua mãe
Está tudo certo... você não vê que bossa-nova não combina em nada com árabes?
ResponderExcluirJá mulher melância sim, tem tudo a ver... bbbbbbbbbbjjjj
Lilly