sexta-feira, julho 27, 2012

De bar em bar


Madrid, 27 de julho de 2012.

Invado Malasañas, útero e trompas da verdadeira movida madrilena. Entro via Fuencarral na Madrid dos anos 80.  Jovens, botelhoes, ruído, confusão.  Tomo um vermute e uns croquetes na Bodega de la Ardosa. Abasteço a alma ao estilo hemingwaniano.

Saio do bar, viro à esquerda na Houston Street, vejo a escassas três quadras a Washington Square. Relembro-me dos bons tempos de estudante.  Com o apetite potenciado pelo vermute, aceito uma mesa mesmo ao pé dos músicos no Arturo’s Restaurant. Engulo uma das poucas boas pizzas nova-iorquinas e umas tantas cervejas artesanais , assisto um bom show de jazz ao vivo, pago a conta e me pirulito.

Já saciado, resolvo seguir o itinerário e ando alguns poucos quarteirões e por fim chego na Rua Wizard, em paulistanes viiiizaard, morô mano! Lá, encosto ao balcão do bar velho do Empanadas e peço a especiaria da casa. Delicio-me com duas de carne, suculentas e recheadas, acompanhadas por uma bela Cerra-Malte 600 ml.

A estas alturas, sinto a frescura etílica na corrente sanguínea.  Penso afinal que a tradição do bar em bar poderia e deveria romper fronteiras. Que bom seria ter Malasañas, o Village e a Vila Madalena ao alcance imediato! O problema seria que qualquer cidade e nossos fígados não suportariam tamanha intensidade!

Homenagem ao banzo permanente que o viajar nos causa.



A nostalgia dos manguaças segundo Hooper.

sábado, julho 21, 2012

O casamenteiro e a cabeça do Goya


Madrid, 21 de julho de 2012

Seguindo os passos do filósofo que durante seis meses explorou e pretendeu conhecer a fundo o seu próprio quarto, decidi já há algum tempo que sempre que possível, faria algum passeio turístico pela cidade de Madrid. Seria inverossímil estar já dois anos aqui e somente conhecer o Prado, a Cibeles e cia. limitada.

Decidi portanto pouco a pouco conhecer alguns lugares inusitados e algo fora da rota comum. Nestes últimos meses visitei o Palácio Real e a Catedral Almudena (consulte Pinicos Reais e Crowd funding) e outro dia passeamos ao largo das margens do suposto Rio Manzanares, numa zona muito bonita reurbanizada chamada de Madrid Río.

Hoje acordamos, tomamos café-da-manha na nova padaria no andar térreo do nosso prédio, a Tati gostou muito, deliciou-se com um croissant de chocolate  e com as lombrigas sob controle, rumamos ao passeio.

Nosso destino desta vez foi a ermita de Santo Antonio da Florida. Não é a Florida dos EUA não, mas sim um passeio em plena Madrid com o mesmo nome. A ermita foi construída no século XVIII por conta do Rei Carlos III, por sua devoção ao santo casamenteiro. O toque final da pequena capela foi de ninguém menos que de Goya.

De acordo com a mitologia cristã, Santo Antonio (de Pádua), lisboeta alfacinha de pia, recebeu uma revelação divina que seu pai estava sendo julgado erroneamente por um assassinato, pediu uma carona na cauda de um anjo e voou de Pádua à Lisboa a tempo para salvar seu pai de tamanha injustiça, sendo hoje o pobre teria que comprar um bilhete na Ryanair e passar pelo security check no aeroporto! Enfim, quando lá chegou, ressuscitou o defunto que testemunhou a inocência do pobre “pai de santo”.

Os afrescos de Goya na ermita são preciosos. Entendi lá dentro que nossos interesses ao visitar a capela eram muito distintos: os meus, por pura curiosidade artística e histórica, já os da minha esposa, de agradecer ao santo casamenteiro pela sorte recebida! (vejam foto).

Goya já era famoso e nobre ao iniciar os afrescos. Inovou na técnica e na mensagem, pois foi a primeira obra católica na qual as pessoas estão acima dos anjos, é incrível. Na cúpula vê-se mais de quarenta personagens e como uma telenovela da Globo o enredo é interessante: tem amante, está lá o assassino, há mendigos, crianças, o defunto e claro, o Santo salvador de pais azarados.

Também, anos depois, o corpo de Goya foi transferido de Bordeau na França, onde falecera para lá. Mas tamanha surpresa!!!! O crânio já nao estava lá, enterraram em solo espanhol apenas os demais ossinhos do ilustre pintor! Um pintor descabeçado diriam uns.

Foi um passeio incrível, entre santos casamenteiros, anjos, afrescos e uma peregrinação de agradecimento pela sorte do marido que minha mulher ganhou, fiquei me perguntando se o santo, através de obra divina ou mesmo puro agradecimento, seria capaz de devolver o crânio ao pobre pintor descabeçado.

O santo inquirindo o pobre defunto... confessa, confessa, confessa!!!!!

Aqui o pintor ainda tinha a cabeça no lugar!!!!


Obrigado Santo Antonio pela graça concedida!

sábado, julho 14, 2012

Qual-é-o-seu-nome? (em mineirinho...)


Madrid, 07 de Julho de 2012.

Parecendo uma lebre erguida e atenta no meio da pradaria, preocupada com possíveis predadores, lá estava eu de orelhas bem abertas e empinadas à espera de perceber do que se tratava. Era chinês? Era polaco? Era turco? Negativo. Era húngaro e me encontrava geometricamente no epicentro do país, mesmo ao pé da entrada do funicular.

Tentei entender mas me escapavam os significados. Aquela língua e aquelas palavras desconsertavam-me como nunca antes me havia passado. Confesso que já viajei mas tamanha experiência jamais tinha vivido nestes trinta e quatro anos.

Entendi portanto que a viagem seria apreciada no seu visual e no toque das suas calçadas por turistas andarilhos como nós, pois ao lado da minha mulher, é o que me toca sendo o turismo para ela sinónimo de boas sapatilhas e muitos quilômetros a percorrer pelas urbes deste mundo afora.

A cidade de Budapeste é maravilhosa. De fato, como bem nos explicou Chico no livro-filme homônimo, são duas cidades, duas nao, três. Buda, Óbuda e Peste. Buda cidade mais tradicional, oriental e pacata, cuja toponímia significa “muitas termas” (comento este fato mais adiante), já Peste, na verdade “Pesshhhh” como bem frisou nossa guia turística, significa “piras de fogo”. Nao me pergunte porque pois nao pude captar enquanto a guia nos explicava no seu inglês britânico. Esta segunda cidade já muito mais “europeia” e imponente, produto de uma curta mas intensa dominação austríaca pela zona.

Ficamos mesmo no olho do furacão. Buscando um pouco de conforto hospedamo-nos no Mercure da rua principal chamada “Vaci Utca”, sendo utca a rua. Lá, encontramos uma espécie de baixa peadonal, na qual se pode ir para todo lado e encontram-se todas as boas lojas, prostitutas e restaurantes da cidade, tudo que um turista normalmente almeja!

Para quem lá nunca esteve, deixo aqui algumas dicas do nosso itinerário. Vale ressaltar que quaisquer tentativas de aprender o idioma local é em vão.  Nos explicaram que todos os filmes de Hollywood que aparecem alienígenas falando, verdadeiramente estão a falar o húngaro! Por este fato já se percebe a dificuldade, em alguns séculos teremos escolas de idiomas promovendo o seguinte produto “Nao vá à Constelaçao de Andromeda para aprender a comunicar-se no espaço, compre um pacote para a Hungria!”.

Passamos deliciosos dias na capital húngara, descansei e retomei forças. Aprendemos muitas coisas e com orgulho voltamos sabendo falar o mais importante, independente de onde estejas. Obrigado. E em húngaro é fácil! Basta imaginar que és um mineirinho, daqueles bem do interior do estado e que ao te conhecer, imediatamente te pergunta: Qual é o seu nome? Voilá! Já sabes falar obrigado em húngaro. É tudo o que precisas.

Köszönöm Budapeshhhhh!


Passeios:

  • Free walking tour. Tres horas a pé, no inicio para entender a cidade. Triptobudapest.hu
  • Passeios de bicicleta pela cidade: contrate um passeio destes, é muito legal passear pela cidade de bicicleta. Nós fomos aos bairros operários e pudermos ver prédios imensos de moradia construidos nos anos soviéticos.
  • Banhos municipais. Simplesmente um luxo! Adoramos. A Tati nao queria sair, há banhos especiais com águas termais. Fomos no mais normal dentro do parque . Széchenyi bath.
  • Parlamento: reserve com antecedência. Nao conseguimos entradas.
  • Grande sinagoga: é incrível. A maior da Europa e a segunda maior do mundo. Indescritível. Percebemos a origem das grandes igrejas católicas.
Comidas:

  • Mercado municipal: Se for no inverno ou em temperaturas mais amenas que o verão, vá comer no mercado municipal, no andar superior há uma série de lojinhas de comida com apetitosas comidas de “cuchara” como dizem os espanhóis
  • Comida Azerbaija: Pois é, quem diria, mal sabia direito o que havia neste país e onde se localiza. Nos deparamos com esta grande “best kept secret” de Budapest. A dona é simpática, conversamos muito sobre o país, sua cultura e culinária. Deliciosos pratos parecidos com a comida do oriente médio. Marquis de Salade, 1065 Budapest, Hajós u. 43 www.marquisdesalade.hu
  • Spinoza Café: Simplesmente sensacional, no coração do gueto judeu. Comemos uma perninha de ganso divina. Música ao vivo, no nosso dia foi um senhor pianista que só tocava trilhas sonoras. www.spinozacafe.hu, nas sextas-feiras toca lá um grupo de música hebraica.
  • Orthodox Kóser Hanna Étterem: outra pérola do nosso passeio. Na minha opinião a melhor experiência culinária da viagem. Um restaurante judeu de toda a vida metido no meio do gueto, atras de uma sinagoga. Creio que nunca vou comer de novo na minha vida um rosbife tao bom quanto aquele. Cuidado com o suposto prato para duas pessoas: satisfaz quatro glutões facilmente. O ambiente é o máximo, é como voltar no tempo dos restaurantes dos anos 50. 1074 Budapest, VII. Dob utca 35.

Spinoza Café: um luxo!

Um encontró de dois escritores desconhecidos.

Acho que cagaram na minha cabeça!

Pedalando pelo subúrbio da cidade...

Comendo kosher. Que delícia!