sábado, julho 21, 2012

O casamenteiro e a cabeça do Goya


Madrid, 21 de julho de 2012

Seguindo os passos do filósofo que durante seis meses explorou e pretendeu conhecer a fundo o seu próprio quarto, decidi já há algum tempo que sempre que possível, faria algum passeio turístico pela cidade de Madrid. Seria inverossímil estar já dois anos aqui e somente conhecer o Prado, a Cibeles e cia. limitada.

Decidi portanto pouco a pouco conhecer alguns lugares inusitados e algo fora da rota comum. Nestes últimos meses visitei o Palácio Real e a Catedral Almudena (consulte Pinicos Reais e Crowd funding) e outro dia passeamos ao largo das margens do suposto Rio Manzanares, numa zona muito bonita reurbanizada chamada de Madrid Río.

Hoje acordamos, tomamos café-da-manha na nova padaria no andar térreo do nosso prédio, a Tati gostou muito, deliciou-se com um croissant de chocolate  e com as lombrigas sob controle, rumamos ao passeio.

Nosso destino desta vez foi a ermita de Santo Antonio da Florida. Não é a Florida dos EUA não, mas sim um passeio em plena Madrid com o mesmo nome. A ermita foi construída no século XVIII por conta do Rei Carlos III, por sua devoção ao santo casamenteiro. O toque final da pequena capela foi de ninguém menos que de Goya.

De acordo com a mitologia cristã, Santo Antonio (de Pádua), lisboeta alfacinha de pia, recebeu uma revelação divina que seu pai estava sendo julgado erroneamente por um assassinato, pediu uma carona na cauda de um anjo e voou de Pádua à Lisboa a tempo para salvar seu pai de tamanha injustiça, sendo hoje o pobre teria que comprar um bilhete na Ryanair e passar pelo security check no aeroporto! Enfim, quando lá chegou, ressuscitou o defunto que testemunhou a inocência do pobre “pai de santo”.

Os afrescos de Goya na ermita são preciosos. Entendi lá dentro que nossos interesses ao visitar a capela eram muito distintos: os meus, por pura curiosidade artística e histórica, já os da minha esposa, de agradecer ao santo casamenteiro pela sorte recebida! (vejam foto).

Goya já era famoso e nobre ao iniciar os afrescos. Inovou na técnica e na mensagem, pois foi a primeira obra católica na qual as pessoas estão acima dos anjos, é incrível. Na cúpula vê-se mais de quarenta personagens e como uma telenovela da Globo o enredo é interessante: tem amante, está lá o assassino, há mendigos, crianças, o defunto e claro, o Santo salvador de pais azarados.

Também, anos depois, o corpo de Goya foi transferido de Bordeau na França, onde falecera para lá. Mas tamanha surpresa!!!! O crânio já nao estava lá, enterraram em solo espanhol apenas os demais ossinhos do ilustre pintor! Um pintor descabeçado diriam uns.

Foi um passeio incrível, entre santos casamenteiros, anjos, afrescos e uma peregrinação de agradecimento pela sorte do marido que minha mulher ganhou, fiquei me perguntando se o santo, através de obra divina ou mesmo puro agradecimento, seria capaz de devolver o crânio ao pobre pintor descabeçado.

O santo inquirindo o pobre defunto... confessa, confessa, confessa!!!!!

Aqui o pintor ainda tinha a cabeça no lugar!!!!


Obrigado Santo Antonio pela graça concedida!

Um comentário:

  1. Gostei muito da sua narração e deu para aprender alguma coisa interessante sobre Madrid.
    Quanto à foto da Tati, digo-lhe que não é muito convincente.

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