quinta-feira, maio 09, 2013

Você quer comprar um camelo pelo preço de um burro!!!


Você quer comprar um camelo pelo preço de um burro!!!
Tanger, 4 de maio de 2013


Não sei por onde começar. Conhecer Marrocos é uma experiência tão intensa que mal sei que linhas iniciais melhor descrevem as sensações de tão poucos dias.

De arranque e como disclaimer inicial, quero ressaltar que em praticamente três dias de viagem, ocorreram-me os seguintes eventos: atrasos e mais atrasos de todos os tipos e formas nos serviços, pilantragens e salafrariçes em geral, fui atropelado (este evento merece um conto a parte) e vi lugares, senti cheiros e vivenciei coisas que jamais poderia imaginar.

Descobri para começar que um lugar tão perto da Europa pode ser diametricamente oposto ao que entendemos por civilização. Já havíamos estado em Tarifa na casa do nosso amigo Manu e da janela via a África ao outro lado do estreito de Gibraltar e me perguntava o que estava reservado para mim ao outro lado. Nesta viagem descobri.

Chegámos em Tarifa para pegar o ferry-boat das 14:00. Primeiro aprendizado, ainda em terras europeias o poder marroquino toma forma: saímos as 16:30. A travessia é bonita e já se notam claramente as figuras sempre-presentes em Marrocos: mulheres encapuçadas, homens barbudos e crianças saltitantes.

Ao cruzar o estreito, lá estávamos em Tanger e o objetivo era pegar já o carro para ir diretamente a Chefchaouen, um povoado no interior a aproximadamente 150 km de Tanger. Enfim, ao chegar lá, a loja estava fechada, não atendiam o telefone e não havia na cidade carros disponíveis para aluguel. Incrível, com o Pedro, namorado da Tia Clarinha, aconteceu algo similar, chegou na Europcar e não tinham carro para ele. Depois de muita briga conseguimos dois carros e fomos rumo a Chaouen. Segundo aprendizado: nunca acreditar que realmente uma reserva em Marrocos se transforme num produto consumível, podem não te entregar o acordado!

Já era tarde quando chegamos em Chaouen e praticamente fomos dormir. No dia seguinte o pequeno povoado nos surpreendeu: as casas e ruas são todas pintadas em azul! Distintos tons: claro, escuro, quase-branco, ... , explicou-me o Fernando que era a forma de proteger contra as pragas e era uma reação natural do dióxido de ferro abundante na região. O povoado era muito pobre mas muito bonito. Fiquei impressionado com uns sujeitos “místicos” usando umas batas muito grandes com gorro e que à primeira vista me pareceram beatos-salús islâmicos mas depois entendi que é o normal neste país. Os homens usam estas batas e ao fim da viagem já podia apreciar as distintas variações: batas de trabalho, batas de lazer e batas de “haute couture” para eventos importantes e casamentos.

No dia seguinte chegamos em Fez. Entendi que foi capital de um grande império árabe e nela está a maior medina do mundo. Aprendi que Medina é a cidade antiga árabe muralhada. A medina na verdade é uma ratoeira de pequenas vielas entrelaçadas que mareia o melhor dos navegantes. É impossível se localizar e identificar padrões de planejamento urbano. O mais interessante é o formato das casas: todas viradas para dentro, por fora são horríveis, sujas, velhas, imundas mesmo mas já dentro são grandes, espaçosas, todas com um grande vao – o pátio – ao meio que concatena a vida familiar em torno de um chafariz para juntar as escassas águas das chuvas. Fomos até mesmo na menor rua da medina – o Fernando podia obstruí-la apenas com os ombros, um encostado numa parede e outro na outra!

O povo é bastante simples, percebe-se que a maioria da população se dedica à agricultura e ao comércio de pulgas, parece que todos estão vendendo alguma coisa a qualquer momento, tipo mascates mesmo.

Os homens à primeira vista parecem despistados, estão sempre sentados, à sombra, descansando não sei de quê pois verdadeiramente não os vi na labuta muito não. Passam, reparam em tudo, verborreiam em árabe qualquer obscenidade as mulheres do grupo e passam desapercebidos. Sempre sentados em cafés a tomar chá de menta ou a conversar em pequenos negócios.

O interessante deste povo é indubitavelmente as mulheres. Neste país, podem escolher a vestimenta, algumas andam à moda europeia, com jeans, roupas até mesmo algo justas, outras já desfilam cobertas dos pés à cabeça com roupas, burcas ou sei lá como se chamam. O que me cativou foram os seus olhos, olhos “oblíquos e dissimulados” como diria nosso Machado. Reparam em tudo que vêm e não lhes escapa nada. Sussurram e transmitem paixão e movimento, que deveras seus corpos escondidos e amputados pelas roupas  as transformam literalmente em passarinhos em gaiolas. Pobres andorinhas sem asas para voar. Algumas destas mulheres deixaram a minha Tati bastante impressionada pois uma de fato não tinha nem sequer os olhos à mostra, estava totalmente coberta.

Outra experiência é ir as compras. Dentro da medina, a bagunça é algo organizada, os souks são zonas de comércio e geralmente estão especializados, artigos de couro, roupas de noivas (cafonésimas e cheias de lantejoulas!), temperos, metais, etc. O comércio é a grande arte dos árabes e ninguém é capaz de vencê-los. Num dos passeios que fizemos, fomos ver a zona dos curtumes. Subimos ao terraço de um edifício próximo e de lá pudemos apreciar a operação do curtume, o árabe que lá nos levou ao abrir a porta do terraço nos deu um raminho de hortelã, à priori não entendi bem mas depois sim, era para coloca-lo nas narinas para suportar o cheiro. A experiência foi interessante e na volta, como na Disney após uma atração, você passa pela “lojinha”! E na lojinha o Fernando tentou engatar numa negociação para a compra de uma pasta de couro.

A técnica da venda é relativamente simples mas muito elaborada: primeiramente o vendedor te explica os benefícios do produto, a mala é de couro de camelo, trabalhada e cosida manualmente por um artesão da cooperativa e insiste sempre em palavras chaves camelo, artesão e cooperativa. Tu perguntas o preço e ele não responde e continua reforçando as palavras chave. É incrível! Depois quando entra no preço ele explica que já não se fabricam produtos assim, que é raro e que os novos lotes e produtores não tem a qualidade de antes. Enfim, quando chega no preço, se você não aceita o preço inicial, ele te pergunta: quanto você pagaria por isto? Aqui é o ponto de inflexão da negociação! Ele sabe por qual preço ele aceita vender mas você não, e também obviamente você nao quer jogar lá embaixo o preço para não ofender. Qualquer preço que você regatear e não for uma ofensa ele usará a estratégia de “vou perguntar para o meu chefe” (ou diretor da cooperativa) e o último movimento deste xadrez é que o chefe aprovou ou não. Em geral o chefe não aprova mas se você der as costas o chefe rapidamente aceita!

Há outras variações deste regateio que não vivenciamos. Algumas vezes fazem coisas para você ficar desconcertado e envergonhado para te forçar a comprar. O Fernando contava que certa vez numa loja de tapetes o sujeito gritava com um velhote para trazer os tapetes, abri-los e voltar a guardá-los. Isto o deixou tão desgostoso que para acabar a história comprou um tapete e se escapuliu. Quanto a pasta de couro, obviamente que a comprou e foi engambelado pelo vendedor! Mas a pasta é bonita. Nesta mesma loja, o próprio vendedor vendo o êxito de sua estratégia da pasta tentou algo similar com o meu primo Afonso, o cercou com outro árabe num corner cheio de jaquetas de couro e lhe ofereceu uma jaqueta por 200€. O Afonso sem saber como reagir, ao ser indagado quanto pagaria pela jaqueta, respondeu 50€! Aqui ele tocou no ponto fraco do árabe. Foi uma ofensa e a resposta sensacional foi “Você quer comprar um camelo pelo preço de um  burro!!!”. E saiu raivoso a desatinar blasfêmias contra o Afonso. Nunca mais vou me vou esquecer!

Outro capítulo à parte é a comida. Como sempre, grande objetivo de qualquer aventura. Nestas bandas, não deixe de pedir “saladas marroquinas” que é uma miríade de saladas de todos os tipos e uma melhor que a outra. Também no café da manha prove as panquequinhas com mel. Uma delícia. Já o resto da comida espere sempre os mesmos sabores: tagine de carne com ameixas e cuscuz. Em homenagem a minha tia Tetéia e ao Jarbas pedimos e comemos uma torta de pombo! Uma delícia!

Se estás procurando um lugar de contrastes, de sabores intensos, de um povo misterioso, alegre e diferente, se uma ou mais chateações, imprevistos ou trapalhadas do povo hospedeiro não tirar o teu bom humor e vontade de aprender dos demais, Marrocos é para ti. Já a decisão de se ao final da experiência qualificaria a viagem como um produto de camelo ou de burro, isto já deixo ao teu próprio juízo. Quanto ao meu, acho que vi um burro com duas corcovas!!!

Esta é Chefchaouen, ou Chaouen, a cidadezinha azul de judeus-marroquinos. Muito bonita!

Esta foto é em homenagem a minha tia Tetéia. Estou comendo uma "pastela" (bolo salgado de pombo!)  .... uma delícia!

Esta é a RUA mais estreita da medina de Fez. O Fernando bloqueou-a de ombro a ombro! O incrível é que por debaixo da linha da cintura havia uma porta para uma casa. Eu e a Clarinha vimos o interior da mesma já que a moradora se interessou por tanto barulho que fizemos lá fora...

Este é o curtume da cidade. Uma cena famosa. Na foto é bonita, na realidade é muito fedida, por isto te regalam um raminho de hortelã ao aproximar-se do lugar.

E aqui por fim o nosso incrível negociante. O peguei no exato momento que após vender a pasta ao Fernando, leva um fora do Afonso e sai esbravejando a famosa frase "Você quer comprar um camelo pelo preço de um burro!!!"

7 comentários:

  1. Anônimo10:48 AM

    Você viveu um viagem de Camelo a preço do burro. Os meus parabéns. Alex

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Mas a pasta é bonita (quanto pagou? um milhão. hummm... mas a pasta é bonita) hahahahaha Tiagão, reconheço você em cada linha, saudades. Abraço, Ronaldo.

    ResponderExcluir
  5. Meu primo-irmão,

    Que bela descrição. Já estou ansioso pela minha provável viagem a Marrocos no próximo ano.

    Como não quero nem pasta, nem jaqueta de couro, é provável que compre vários burros ao preço de camelos!!!

    Saudades!

    Daniel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hahaha Dedé,
      Pode apostar que sempre, consciente ou nao, os árabes sempre vao levar a melhor na negociacao! Pode apostar que o preço é de camelo e o que levas é um belo burro!
      Um abraçao com saudades!
      By the way, Polonia nao é "tan lejos" de aqui!
      By the way 2: Ontem o Sharif me ligou! Está passando férias em Jerez de la Frontera, lhe disse para vir a Madrid me visitar!

      Excluir
  6. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir