Um
verdadeiro herói
Série:
Os grandes da família
Madrid,
20 de Julho de 2013
Heróis não nascem por acaso. Como nos filmes ou nos gibis, eles
todos tem histórias de superação, desventuras e sempre algum poder especial.
Matagaio nasceu no interior do Rio Grande do Norte, algures
desconhecido. No começo do século XX, época na qual a disponibilidade de
recursos e principalmente educação eram mais escassos que água na cacimba.
Vinha do interior e sem paradeiro exato dos pais, ao dar-se por gente resolveu
tomar o rumo à capital.
Tampouco Natal naquela altura era o que hoje podemos chamar de
capital, mas tinha hospital com máquina de raio-x, ou “foto dos ossos” na
linguagem contemporânea local, e até mesmo semáforo, avanços da civilização
moderna.
Quando viu o mar pela primeira vez, não podia acreditar que havia
tanta água disponível. Correu à beira, mergulhou e lambuzou-se de tanto beber
aquela água salgada e marinha. Teve diarreias e desidratação nos seguintes três
dias, mas algo aprendeu: aquilo era onde sempre deveria ter vivido e sabia que
pertencia àquele lugar. Aquela imensidão azul, vasta, profunda e misteriosa.
Já era mocinho e foi oferecer seus serviços por toda a cidade.
Chegou num lugar simples e pobre, onde alguns pescadores ao voltar do seu
ofício, ofereciam os produtos do mar numas barracas fabricadas artesanalmente.
Este lugar era o Canto do Mangue. Ofereceram-lhe que limpasse e lavasse o lugar
todos os dias, após a feira.
No canto do mangue, Maragaio aprendeu tudo sobre o mar, após limpar
o lugar, pelos restos dos peixes sabia diferenciar entre um cação chifrudo,
galhudo, toninha e ou o frango. Gostava mesmo é de encontrar as mangonas, que
preparava como ninguém num molho especial – talvez para suavizar o sabor do
peixe já marrento, resto da feira.
A cada dia que passava, os pescadores foram se afeiçoando cada vez
mais a Maragaio, com sua amabilidade, prudência e bom-humor. Já adulto começou
a participar das pescarias e foi no alto-mar onde os seus superpoderes foram
revelados.
Dizem muitos, e alguns tantos juram de pés juntos, que estiveram
naquele dia no mar com Maragaio. O mar estava revoltoso e decidiram ancorar o
barco num arrecife que sabiam que estava a 40 metros de profundidade
aproximadamente, muitos afirmam que era um abismo marítimo de mais de 100
metros, mas este que vos escreve, prefere acreditar nas primeiras versões. A
pescaria foi boa, muitos lambarus e um grande cardume de pintadinhos.
À hora de desancorar, não havia maneira de tirá-la do fundo do mar.
Problema comum que custava à frota de barcos de Natal muito dinheiro todos os
anos. Maragaio ofereceu-se a tentar mergulhar e recuperá-la. Lá desceu Maragaio
com seu grande tórax e sua inocência. Já tinham-se passado mais de 10 minutos e
nada de Maragaio voltar.
Voltou com a grande ancora na mão para espanto de todos. Todos no
barco pensavam que Maragaio tinha morrido afogado. A partir de este dia, sua
alcunha passou a ser Seu Maragaio.
A história correu todo o litoral potiguar e Seu Maragaio era
solicitado por todos, de Areia Branca à Baia Formosa, para recuperar âncoras e
mergulhar nas grandes profundezas. As vezes passava mais de meia hora lá
embaixo e para surpresa geral sempre voltava com um sorriso na cara e uma poita
na mão.
Nosso grande super herói também tinha outra proeza. Dizem que ao
longo dos anos tornou-se um especialista na arte que ele próprio inventara:
pescar tubarões. Seu Maragaio era muito valente e nem tubarão nem nada lhe
imprimia medo.
Lá no fundo do mar, sabia bem que os tubarões eram seres estúpidos e
medrosos. Lá em cima, era um ás na pescaria de tubarões, inventou Seu Maragaio
a técnica da pesca de tubarão usando galinhas. Enfiava uma galinha viva no
anzol, a jogava no mar e era um sem-fim de embarcar os pobres tubarões que
caiam na sua armadilha.
Hoje em dia, se quiser conhecer mais sobre as peripécias de Seu
Maragaio, basta visitar o Canto do Mangue em Natal, que ainda muitas outras
histórias contam sobre suas proezas e poderes. Muitos afirmam que viajou por
todo o mundo em busca de grandes tesouros que repousavam no fundo do oceano, da
Índia à Costa Angolana.
O certo é que para ser um super-herói basta cumprir com um de dois
requisitos: ou ter poderes especiais, ou existir através de um bom contador de
histórias, algo exagerado e mentiroso como o meu querido e incrível Avô, Seu
Oliveira. Este sim, um grande herói.
Brilhante homenagem, Thi.
ResponderExcluirBrilhante homenagem, Thi.
ResponderExcluirÉ o verdadeiro discípulo de Pantaleão! Muito bom!
ResponderExcluirThiago,
ResponderExcluires tu mejor historia. Me ha llevado a ese tiempo y a ver cómo se comportaba esa gente.
Sin embargo no sabes toda la verdad: Matagaio no bajaba al fondo del mar a sacar las anclas. Él encontró a una sirena y, cada vez que hacía una inmersión, le hacía el amor. Ella lo ataba al ancla para que no se marchase sin terminar. Sólo cuando acababa le dejaba irse con el ancla.
Alex
Alex! Muito obrigado pelo comentario! Adorei o complemento da historia. É verdade, nunca saberemos de fato o que Matagaio fazia lá embaixo no fundo do mar. É bem provável que tinha a sua sereia particular, ou uma baleia... quem sabe!
ResponderExcluirDe acordo com o catálogo potiguar de folclore popular, ediçao escrita por Tathiana Licias de Oliveira, há versoes sobre esta mesma história cujo personagem chama-se Badagaio. Os nomes variam, as mentiras nao!
ResponderExcluirGostei muito da história! Tania
ResponderExcluirA história é muito gira e uma vez mais está muito bem contada. Pois é, não é qualquer um que conta uma história. Mesmo sem acrescentar um ponto, tem a sua arte. E como em muitas outras coisas, você é bom nisso.
ResponderExcluirbj.
Lilly
Super Maragaio!!! Muito bom, abraços!
ResponderExcluirFlavio