sexta-feira, agosto 19, 2016

Uma pequena carta para uma grande diva

Boston, 20 de Agosto de 2016.


Uma pequena carta para uma grande diva

Três da madrugada. Desperto-me abruptamente, algo inusitado para quem dorme pesado. Sinto no peito um vazio que preciso preenche-lo. Não deveria estar me sentindo assim, após um concerto incrível da diva do soul em Boston.

Aretha poucas horas antes cantara seus clássicos Respect, Chain of Fools, I say a little prayer entre outros. Eu voltei satisfeito para casa e tombei o corpo cansado no colchão.

Num ato peristáltico sem qualquer razão para existir, corro para a minha caixa de recordações,  que há duas mudanças não a abro. Começo a sacar fotos e postais antigos. Quase todos são da Vó Xila: Tanzânia, Austrália, Alaska, Alentejo, entre dúzias de outros mais.

Leio-os todos atentamente, tentando decifrá-los através das manchas do tempo e da caligrafia arabesca da minha avó. Somos o que fazemos, e não o que dizemos., penso comigo mesmo. Nestes postais deduzo e confirmo as principais características da minha avó.

Sempre assina Vó Xila e Vô Renato. Nesta ordem. Sempre o seu querido marido (e “mordomo”) lá junto acompanhando-lhe nas andanças e aventuras pelo mundo. Sempre destaca a beleza existente nos pequenos detalhes, apontando desde a janelinha do quarto em que estivera hospedada num grande hotel, a como a bolsa marsupial dos cangurus é tão gira. A palavra saudade está presente em todos os postais. Pergunta sempre se venho no verão para Portugal para irmos juntos à praia em Setúbal.

Ela se foi há pouco mais de dois meses. Não alcancei vê-la neste verão. Tenho que agora desassociar Portugal dela, pois as duas figuras se misturam na minha cabeça. Difícil pensar em chegar no aeroporto de Lisboa sem tê-la lá a acenar muito pavoa a nossa espera.

Cresci escutando suas historias, as viagens, os causos, e abriu-me sempre a curiosidade de desafiar os limites geográficos da nossa existência. Talvez por isto que viva esta vida itinerante.  

Imagino que agora, está lá com o Vô num cruzeiro, seu habitat natural, ambos muito elegantes, ele a paparicá-la e ela a conversar e a divertir-se. Penso que neste navio jantam todos os dias com o capitão, e sentam-se à mesa com os maiores estadistas e lideres da humanidade, Napoleão obviamente é presença marcada, e tem na minha avó sua grande conselheira para qualquer assunto.

Do Indra Regent Hotel em Bangkok, em 02 de Fevereiro de 1989 me escreveu numa carta o seguinte trecho:

“Então como vai? Quando tiver um pouquinho de tempo escreva-me uma pequena carta, pois ficaria bem contente. Tenho loucas saudades! Quando você vem cá para eu as matar?”

Pois minha diva, também tenho loucas saudades. Não imaginas o quanto. O mundo ficou mais vulgar e gris sem a tua presença.

Conforto-me desta tresloucada saudade com o maior presente que me deste, o qual deixaste gravado noutro cartão que recebi quando vivia no intercambio nos EUA e sentia-me muito sozinho. Transcrevo-o logo abaixo.

Obrigado minha querida avó por ter-me dado a honra de conviver contigo. Mesmo com esta distancia que as circunstancias nos impõem, estás muito presente.

Thiago

“Amar é estar presente na distancia
E sem palavras anular silêncios
Para o meu querido Thiago não se esquecer da sua Vovó Xila”

(Natal/1995)


Nós dois no autocarro em Lisboa, circa 2002.


Harmonize o texto com a música Bridge Over Troubled Water da Aretha Franklin. Clique aqui.

3 comentários:

  1. Parabéns pelo relato, homenagem mais que merecida à uma grande e maravilhosa mulher que nós ensinou e continuará nós orientando á cerca de como viver plenamente. Bjs querido e mt obrigada pelo texto.

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  2. Parabéns pelo relato, homenagem mais que merecida à uma grande e maravilhosa mulher que nós ensinou e continuará nós orientando á cerca de como viver plenamente. Bjs querido e mt obrigada pelo texto.

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  3. aguiar.anacarol@gmail.com7:59 PM

    "No mistério do Sem-Fim,
    equilibra-se um planeta.
    E, no planeta, um jardim.
    e, no jardim, um canteiro:
    no canteiro, uma violeta,
    e, sobre ela, o dia inteiro,
    entre o planeta e o Sem-Fim,
    a asa de uma borboleta."

    Cecília Meireles

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