domingo, junho 24, 2012

De besouros e desolados

Madrid, 24 de Junho de 2012.

Este fim-de-semana estiveram aqui a minha mãe e o Fernando. Vieram me visitar e celebrar os meus trinta e quatro anos. Não diria primaveras, pois pelas minhas andanças entre os dois hemisférios esta conta estaria seguramente fadada ao erro.

Contaram-me que estão a pensar comprar uns besouros vindos da Bélgica, que veem numa caixa, basta abri-la e os besourinhos muito disciplinados já saem a trabalhar. Não picam e são instruídos basicamente para das 09 as 18 recolherem pólen de um lado e misturá-lo com outros.  Depois chegam a casa (a caixa!) para repousar de mais um dia de trabalho. É uma forma ecológica e barata para aumentar a produção agrícola. Isto da caixa e dos besourinhos pode-se seguramente usar para desenhar muitos paralelos à vida moderna atual.

Também neste fim-de-semana fomos agraciados por uma excelente exposição do artista norte-americano Edward Hopper no Museu Thyssen. Digo-lhe o nome sempre errado, como Hooooper, mas deve ser Hóper ou algo assim. Não importa. O que importa é que o sujeito tem uma arte bastante interessante. Há um certo padrão nas suas obras, pessoas desoladas, pensativas, mirando ao nada, muitas vezes com um livro na mão mas dá-nos a sensação que nada estão a ler. Já em outros quadros, mulheres também com a vista perdida, sozinhas em quartos de hotel, sempre a raiar uma luz amarela e límpida de grandes janelões abertos. Trabalhadores, funcionários, operários que do desjejum ao apagar do abajur não fazem nada mais que trabalhar.

E aí encontramos o paralelo.

No país capitalista por essência, nos grandes e duros anos do entre-guerras, pessoas comuns que, de certa forma, não se satisfazem com aquela vida, contas a pagar, salario, responsabilidades, se veem sós naquele mundo cuja paleta de cores não se parece nada uma caixa de lápis carandache. Grandes extensões e o ser humano diminuto, reduzido a representar o papel de mais um besouro nesta grande lavoura.

Um besouro segundo Hopper.


Compre já a sua caixinha! (disponível na Internet)

5 comentários:

  1. Não comprei. Achei vários besouros e descobri que um deles é você. Gostei muito da sua história que casa muito bem o seu peculiar humor com a sua sensível seriedade. Pode continuar que eu vou fazer o mesmo. Um beijo grande.
    Sua tia
    Lili

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  2. Carla Sandreschi6:41 AM

    Grande sacada!
    A modernidade implanta grandes vazios em nome da "super produção"! Precisamos ter a oportunidade de acordar em um sábado chuvoso e ter nossos "polens" multiplicados com essa leitura sensacional!
    Continue sendo nosso bezouro!
    Carla

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  3. Carla Sandreschi6:41 AM

    Grande sacada!
    A modernidade implanta grandes vazios em nome da "super produção"! Precisamos ter a oportunidade de acordar em um sábado chuvoso e ter nossos "polens" multiplicados com essa leitura sensacional!
    Continue sendo nosso bezouro!
    Carla

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  4. Carla Sandreschi6:41 AM

    Grande sacada!
    A modernidade implanta grandes vazios em nome da "super produção"! Precisamos ter a oportunidade de acordar em um sábado chuvoso e ter nossos "polens" multiplicados com essa leitura sensacional!
    Continue sendo nosso bezouro!
    Carla

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  5. Carla Sandreschi6:43 AM

    Grande sacada!
    A modernidade implanta grandes vazios em nome da "super produção"! Precisamos ter a oportunidade de acordar em um sábado chuvoso e ter nossos "polens" multiplicados com essa leitura sensacional!
    Continue sendo nosso bezouro!
    Carla

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